Opinião

"A política como corrida de cavalos"

"A política como corrida de cavalos"

Os assombrosos 70% de abstenção registados nas eleições de domingo são sobretudo resultado de uma campanha feita à medida da respetiva mediatização.

Como a intermediação do fenómeno, em Portugal, ainda é essencialmente garantida pela televisão, os candidatos moldam-se à tirania vendo tudo injetado, a seguir, nas veias das redes sociais.

"Agradar e tocar: ensaio sobre a sociedade da sedução" é o último livro de Gilles Lipovetsky , que acaba de ser lançado em Portugal.

Ao folheá-lo passei por estes parágrafos que não resisto a partilhar:

"Ao mesmo tempo, no pequeno écran, a política tende a construir-se mais como um espaço de confronto entre candidatos ao poder do que como um espaço de governo e de gestão de assuntos públicos. Os jornalistas apresentam cada vez mais a vida política como uma luta entre concorrentes por cargos, dando mais destaque aos ataques pessoais e às provocações de uns e outros do que às políticas nacionais. Os debates políticos nas televisões são assimilados a duelos, a "lutas de gladiadores" (Michel Rocard): em 1989, no debate que opôs Jean-Marie Le Pen a Bernard Tapie, o jornalista Paul Amar chegou a colocar dois pares de luvas de box vermelhas na mesa entre os dois homens.

(...) A utilização das sondagens vai no mesmo sentido. Em particular, nas campanhas eleitorais, manifesta-se a horse - race reporting, cujo tratamento mediático as assimila a "corridas cavalos". Uma parte importante da cobertura mediática das eleições consiste em anunciar, através dos números das sondagens, que partido vai à frente na corrida, quem são os candidatos mais bem colocados, quem são os que estão na cauda, quem são os que têm mais hipóteses de vencer.

(...) Enquanto a cena política se transforma em jogo de desempenho e em suspense, as sondagens encorajam uma versão fílmica da política. À religião da política sucede o thriller da competição democrática ou a comédia do jogo do vencedor e do perdedor".

Talvez valesse a pena parar para pensar...

Analista financeira