Opinião

Saudades do futuro!

Ao olhar, nesta rentrée, para a paisagem construída pelo discurso político, fica-me uma sensação muito cinzenta.

De António Costa, quem formalmente deu o tiro de partida, a Pedro Santana Lopes, passando pelo CDS e pelo PSD, tudo o dito vai no sentido do passado ou do presente repisado.

António Costa insistiu em comparações, julgo que rigorosas e certamente vantajosas, com o período da crise. Prometeu continuidade nas políticas e nos parceiros e defendeu um PS forte que lhe permita gerir ao microscópio as cedências que uma eventual coligação parlamentar lhe impuser. O que é manifestamente inteligente, já que talvez seja mais fácil governar com amigos interesseiros do que só com inimigos.

Já insistir em resultados por comparação a um período tão anómalo da vida nacional talvez não seja tão boa ideia.

O país ultrapassou a crise, com óbvia vénia ao Governo de Pedro Passos Coelho, mas tem agora de progredir assente nos novos pilares em que pisa. Não chega equilibrarmo-nos em cima deles. Temos de pisar firme e temos de perceber que caminhos defendem os líderes.

E não chega, como fez Pedro Santana Lopes em entrevista a que assisti, repegar em ideias gerais como o problema da carga fiscal ou do desenvolvimento do interior. Muito menos se, neste último caso, a solução passar pela descentralização de secretarias de Estado.

A inocência mediática com que afirma a sua vontade de ajudar Portugal pode vir a dar alguns resultados eleitorais. Mas será mais um desperdício se as propostas não saírem de lugares-comuns.

Em bom rigor, falta perceber como se posiciona o PSD e que ideias poderá trazer neste início de ano político.

Isto porque ao PCP todos perdoarão o imobilismo, ao BE o histrionismo e ao CDS um certo oportunismo.

No fundo, o país não vai mal, mas talvez agora pudéssemos todos regressar ao futuro.

* ANALISTA FINANCEIRA