Opinião

E se?

E se tivéssemos coragem para decidir, já, que vamos ter apenas um candidato presidencial? O que se poupava em modéstia fingida, sapos engolidos, constrangimentos violentos, papel e pseudodebates era obra. Talvez abrisse uma exceção para o Vitorino Silva (Tino de Rans) porque ainda daria algum trabalho a Marcelo.

E se soubéssemos o que de importante ficou para o país da visita do presidente da República a Angola?

Foram assinados 11 protocolos? Em que áreas? Para quê?

Já quase não sobram áreas para estendermos a nossa cooperação bilateral, dizia João Lourenço. Ai sim? Então quais são? Não começamos tudo agora, certo? O que fizemos até aqui?

Ouvimos vagamente dizer que o problema da repatriação de capitais está resolvido em 2/3. De que falamos? Que empresas? Quantos trabalhadores? Que volumes? Que metodologias? Que confiança para o futuro?

Nada de nada. Da visita nem a ideia de um bom ambiente me ficou. Para isso seria preciso projetar a imagem de uma simpatia serena e lúcida. Ao invés, as televisões projetaram imagens ininterruptas de uma popularidade fácil e nervosa à custa de populações a quem, quase sempre, se nega uma vida digna e cidadã.

E se a Comunicação Social se tivesse lembrado que Portugal tem uma ligação histórica de séculos aos territórios visitados e nos recordasse, em paralelo com a visita presidencial, o que lá construímos ontem e hoje?

Que a Universidade Agostinho Neto é a sucessora da Aula de Medicina e Anatomia de Luanda, criada pela Carta Patente de D. Maria I em 24 de abril de 1789.

Que Lubango, ex-Sá da Bandeira, era conhecida como a "Coimbra de Angola".

Que do Porto de Lobito se inicia o caminho de ferro de Benguela, cuja concessão à CCFB, SARL por 99 anos foi obtida junto do reino por Cecile Rhodes só terminando em 2011 tendo a infraestrutura finalmente passado para o estado angolano. Que os terrenos alagadiços da Catumbela foram drenados por engenheiros portugueses para poderem produzir a cana de açúcar.

Ciência, inovação, sustentabilidade. Memória preservada e correta do que fizemos bem.

E se?

* ANALISTA FINANCEIRA