Opinião

Investir na diversidade!

Investir na diversidade!

Quando um dia perguntei ao professor Alexandre Quintanilha o que mais lhe tinha chamado a atenção quando chegou ao Porto vindo de S. Francisco, a resposta foi: "Eram todos brancos e falavam todos a mesma língua!".

Fiquei impressionada com a resposta e volta meia volta vou pensando no que significa.

Porque ser diverso não é a mesma coisa do que ter turistas pelas ruas. O colorido da diversidade tem de vir de dentro, tem de ser assumido e mostrado com naturalidade e orgulho.

E isto convoca, sobretudo, a necessidade de irmos mais fundo no conhecimento de nós próprios.

Tudo me pareceu subitamente claro e urgente quando, por estes dias, fui desafiada a fazer uma intervenção sobre ecumenismo entendendo-se como tal o movimento pela unidade dos cristãos.

O "ser-se português é ser-se católico romano" que Salazar impregnou de tal forma a nossa consciência que, falo por mim, nunca nos demos ao trabalho de tentar perceber o que significava, nem que fosse do ponto de vista cultural o fenómeno ecuménico, por exemplo, na cidade do Porto.

E, no entanto, se o tivéssemos feito, teríamos percebido desde logo que o Porto tem uma enorme tradição ecuménica ligada à sua intrínseca natureza liberal e tolerante. Mesmo quando qualquer variação da religião oficial era estritamente proibida, o Porto sempre manteve a presença de igrejas diversas por via do bom acolhimento com que distinguia as comunidades protestantes estrangeiras.

Quem conhece o legado da luta contra o analfabetismo liderado pela igreja metodista portuguesa? Quem entrou na Igreja do Mirante na Praça Coronel Pacheco ou na Igreja de St. James ao Largo da Maternidade? Quem conhece as tradições literárias ou musicais destas comunidades? Quem imagina que na sua maioria estão presentes entre nós há mais de 100 anos?

Falo num plano estritamente secular e cultural e parece-me que quer a cidade quer o Estado muito teriam a ganhar se promovessem um mais profundo conhecimento de toda a diversidade que nos habita.

O Porto seria o mesmo. Apenas ressoaria com mais brilho a sua alma tolerante e hospitaleira.

* ANALISTA FINANCEIRA