Opinião

Ironias

A entrevista ao "Público" do ministro das Finanças deixou-me desconcertada.

Há quase uma década que os ministros das Finanças em Portugal são o elo mais desgastado da cadeia governativa porque basicamente carregam com o ónus da poupança forçada seja por via de rendimentos suprimidos, seja por força de cativações nem sempre transparentes nos critérios e nos timings.

Apontados a dedo pelos colegas e diariamente expostos na Comunicação Social, todos acabaram por sucumbir.

Mário Centeno é uma exceção.

Chefia uma pasta ao arrepio do que propôs antes da formação do Governo, fez das reposições minimalistas de rendimentos uma "conquista de Abril", encostado ao espírito revolucionário da "geringonça" para chegar ao fim da legislatura com um discurso virado para a contenção nos gastos e a preocupação de não dar passos maiores do que as pernas.

É verdade que a rede de que dispõe é muito forte:

- os indicadores macroeconómicos são bons;

- as sondagens também;

- a solução governativa não cairá a menos de um ano do final da legislatura;

- até porque Marcelo Rebelo de Sousa a continuará a apoiar em nome da estabilidade governativa.

Mas a autoridade com que se expressou (na entrevista ao "Público") é, de facto, desconcertante. O que teria acontecido aos seus colegas se tivessem ousado falar das reivindicações dos professores com a leveza de Centeno? Quem se teria atrevido a reter verbas para a Saúde depois do tristemente mediático episódio (ainda não resolvido) da pediatria oncológica do S. João Porto? Quem teria menorizado tão claramente as reivindicações de aligeiramento fiscal do Bloco de Esquerda?

Centeno pisa com força um tapete que o poderá conduzir a metas mais ambiciosas nos salões europeus. Afinal, é de lá que vem este linguajar moralista.

O problema é que, se é para ser assim, o discurso fica perigosamente parecido com o de Rui Rio. E, nesse caso, pode ser que os portugueses venham a preferir o original!

*ANALISTA FINANCEIRA

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