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Opinião

Pelos caminhos de Portugal…

Pelos caminhos de Portugal…

Voltei a fazer, em peregrinação a pé a Fátima pelos Caminhos de Santiago, o Portugal escondido.

Palmilhei 14 concelhos sobretudo nas costas das respetivas sedes.

E voltei a ver aquilo que mais me assusta: todos os sinais da interioridade de que falamos quando nos referimos a Trás-os-Montes ou ao Alentejo profundo.

Ou seja, sem que a maioria de nós se aperceba, a escassas dezenas de metros do mar já não há gente, já não há emprego, já não há agricultura, nem sequer hortas de sobrevivência, já não há serviços públicos.

Há alguma gente idosa e só, que rapidamente se punha à janela para nos ver passar - os poucos que por lá passam em sentido inverso a caminho de Santiago são estrangeiros - ou que nos explicava, quando nos abrigávamos debaixo das raras paragens de autocarro (a maioria das povoações tem placas com números de telefone para onde se deve ligar a pedir que venha a carreira), que iam ao supermercado do centro do concelho porque já não havia lojas e , sobretudo, porque sempre se conversava alguma coisa.

Lembro-me de duas senhoras com quem metemos conversa, prontamente respondida, que nos diziam que vivendo sozinhas nem a televisão lhes valia porque "...só dava doideiras...". Como as percebi quando remotamente ia seguindo o caso Berardo.

O despovoamento deste país é um fenómeno no limite da reversão. Para além das casas a cair, vestígios de gerações que não se renovam nos hábitos nem nas condições de vida, veem-se por todo o lado casas de emigrantes que, ainda robustas, não virão seguramente a ser habitadas em permanência.

As novas gerações que retêm pais e avós nos destinos da emigração não proporcionarão o regresso e a total ausência de perspetivas no local de origem não desafiam novas investidas. Envelhecerão e cairão como as dos seus antepassados apenas habitadas por cães que ladram a quem passa mais para "meter conversa".

Como não vi gente, nem empregos, nem serviços públicos, nem lojas, nem hortas, nem quase nada, também, naturalmente, não vi qualquer vestígio de campanha eleitoral.

Porque ali, de facto, não é Europa!

*ANALISTA FINANCEIRA