Opinião

Portugal não tem férias…

Portugal não tem férias…

O sol abriu finalmente e estamos todos cansados.

Só a gritaria das promessas e dos eventos mais ou menos encenados ameaçam a silly season, habitualmente pachorrenta e inócua, em razão das eleições que se avizinham.

E, no entanto, Portugal não tem direito a férias!

Esta ideia de que a tormenta passou e de que temos a missão cumprida porque há mais emprego e mais consumo não nos pode pôr a dormir à sombra da bananeira ou da barraca de riscas azuis.

Portugal é um país envelhecido, endividado, de baixa competitividade, com serviços públicos de qualidade razoável, mas muito dispendiosos e a necessitar de grandes investimentos.

A consistência da nossa aparente tranquilidade é de tal forma minguada que as pernas se põem a tremer só de pensar nos efeitos de algumas das tormentas externas que nos podem atingir.

Seria, por isso, muito importante que todos nós nos dispuséssemos a exigir abertamente discursos eleitorais que fizessem sentido em vez de encobertamente estimularmos os do costume.

Os do costume, que os políticos engendram de forma tecnicamente tortuosa e comunicam por meio de linguagem ultra-simplificada e demagógica.

E os discursos que fazem sentido passam, julgo, por aceitarmos que temos graça, mas somos um país irrelevante na condução da política europeia. As recentes negociações sobre a repartição dos principais lugares de governação europeia provaram-no inequivocamente.

Passam por percebermos que temos um serviço de dívida brutal e uma provisão de serviços públicos pesada e cara e que isso não permite alívios de carga fiscal nem aumentos significativos de massa salarial.

Por mim gostava de ouvir, com clareza, como podemos trabalhar melhor, porque já não há gente para apenas trabalhar mais e, sobretudo, gostava de perceber como podemos ser mais.

Acabo de ouvir na rádio que, mesmo com mais nascimentos, já somos apenas 10 280 000 portugueses.

E destes, a maioria já paga muito poucos impostos. E como são muitos os aumentos prometidos, são apenas tostões.

E não têm, há muito, direito a férias...

Analista financeira