Opinião

Prestar contas

Veio parar-me às mãos por estes dias um livrinho de 1956 publicado e "oferecido à Campanha Nacional de Educação de Adultos no 30.º aniversário da revolução nacional".

A linguagem paternalista e a imagem infantil, quase repugnantes, são um manifesto da arrogância com que o regime de Salazar tratava o povo e controlava a nação.

Vencidos estes obstáculos estéticos e éticos, folheei-o para descobrir, com algum interesse, um rol perfeitamente ordenado de objetivos e o relatório, perfeitamente quantificado, das respetivas concretizações: os saldos de gerência de 1928 a 1940 - todos com saldos positivos; o número de estradas beneficiadas e construídas com dados ao nível das terraplanagens, pavimentação e reparação; o número barragens e respetiva contribuição para a rede elétrica nacional; a beneficiação nos portos e nos aeroportos de Lisboa e de Santa Maria, nos Açores; o incremento dos ativos ao nível da frota da marinha mercante; que por 1956 assegurava 60% das nossas exigências de importações e exportações; o número de escolas construídas e os alunos abrangidos nos vários graus de ensino; o número de habitações para famílias desfavorecidas, com renda económica ou de renda limitada; o número de maternidades (138), serviços maternoinfantis (338), internatos para menores (163), semi-internatos e externatos para menores (145), colónias de férias para crianças (67); produção exata para os anos de 1925 e 1953 de trigo, milho, centeio, batata, arroz, vinho, cortiça, azeite.

O texto reverencial a Salazar e a estrutura corporativista que sobressai de forma asfixiante da divisão dos temas e dos feitos realizados são bem ilustrativos das condições sob as quais foram atingidos os feitos propagandeados.

No entanto, não deixa de ser um prestar de contas concreto e à prova de qualquer verificação, ao tempo ou vindoura.

Não pude deixar de sentir a vontade de ter uma métrica igualmente concreta e verificável do que nos prometem e do que, afinal, se faz.

Às voltas com o tema da ferrovia, mas podia ser das estradas, das pontes ou das barragens fica-me a exaustão de quem não pode afiançar que percebe o que se fez, o que não se fez, ou o que se fará, apesar do que se prometeu!

Analista financeira

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