O Jogo ao Vivo

Opinião

Vendilhões do templo

A expressão é forte, mas é a que mais verdadeiramente traduz a minha reação pessoal, enquanto católica, apostólica, romana, à forma como as Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ) têm sido tratadas desde que Portugal foi indicado como o seu próximo anfitrião.

Não! As JMJ não são um encontro do programa Erasmus e, portanto, não servem para, como já me fartei de ouvir, "pôr em contacto diferentes culturas...".

Não! As JMJ não são uma Expo 2022 e não servem para requalificar, remodelar, modernizar, o que quer que seja.

Não! As JMJ não são a fase dois da Expo 98.

Não! As JMJ não são uma Web Summit a captar jovens talentosos dos quatro cantos do Mundo.

Não! As JMJ não são parecidas com o Mundial de Futebol.

Não! As JMJ não são importantes por trazerem a Portugal mais de um milhão de jovens!

As Jornadas Mundiais da Juventude existem para falar de Jesus Cristo aos e com os jovens; existem, para os convidar a sentir com a Igreja, fortalecendo os vínculos entre si e com o seu pastor, como não se cansou de repetir Francisco no Panamá. Existem para lhes falar "do mistério da encarnação, do abaixamento, da descida de Deus que se faz pequeno, humilde, que se torna homem e vive a condição humana até ao fundo". A eles, especialmente aos jovens porque, como citou Francisco de um filósofo grego "Os jovens são como um moscardo no dorso de um nobre cavalo, para que não se adormente".

Sobrepor a este desafio a linguagem tecnocrata e fria das receitas, das dormidas, das obras e dos projetos é sinal da pobreza e do endurecimento do nosso coração.

Dos que acreditam e não têm o desejo, ou a vontade de falar.

E dos que mandam e não resistem ao anúncio mediático do "evento", da "oportunidade", do "Portugal na moda", do "conseguimos" no mesmo tom em que se celebrou o Euro 2004, a Web Summit ou o Festival da Canção.

Até porque me parece que ainda ninguém percebeu nada. Desde quando é que uma iniciativa da Igreja Católica é apresentada, gabada e celebrada por um Estado que tão enfaticamente se diz republicano e laico?

E porquê em Lisboa? Quando é que, afinal, os nossos governantes, todos, terão vergonha em falar do seu amor pela descentralização?

Talvez a hierarquia católica portuguesa se devesse ter explicado melhor durante todo o processo e talvez seja altura de tentar repor a centralidade deste encontro com Jesus Cristo com uma comunicação firme, clara, corajosa e motivadora. Para crentes e não crentes.

Assim, todo o resto será, finalmente, instrumental.

*Analista financeira