Opinião

Um político feliz!

Mal o conheci pessoalmente. Apenas coincidi e cumprimentei em algumas sessões públicas. Por isso, não sei se era um homem feliz.

Mas um político feliz tinha de ser!

Porque casei com um jornalista que teve a sua carreira de repórter muito ligada aos anos de combate de Mário Soares depois do 25 de Abril, a minha casa encheu-se, há uns anos, de um arquivo fantástico de pequenas coisas que hoje, escrevo no dia em que Soares é levado a enterrar, montado o puzzle, resultam no título desta crónica.

Talvez não seja a memória que Soares mais gostasse de ver preservada. Mas é a que obrigatoriamente fica, depois de um olhar atento a todas as imagens.

As que eu tenho cá em casa são de todas as espécies, crachás das campanhas, autocolantes "Soares é fixe", pequenos cartonados com um Mário Soares a rasgar uma moeda que, por dentro, é um escudo. Centenas de fotografias de debates, discursos, comícios, crachás de conferências, de quando ainda não havia a moda das fitas à volta do pescoço, pins já enferrujados, enfim, tudo o que possam imaginar e que não se podia perder, nas mãos de um repórter atento e colecionador de imagens.

E, volto a dizer, o que sai de uma análise global a tudo isto é a imagem de um político feliz! Nem sempre está sorridente, nem sempre sério, nem sempre formal, nem sempre "négligé", nem sempre calmo, nem sempre furibundo.

Mas sempre sem ar de sacrifício. Ao contrário, com ar de que não gostaria de estar em qualquer outro lugar ou a fazer qualquer outra coisa.

E isto é tão importante! Um político feliz dá confiança e contagia. Faz acreditar que vamos conseguir. Ou, no limite, que vai correr tudo bem. Dá a sensação de que está a lutar, com esforço, mas que está a gostar. E isso descansa.

O resto, o regime pelo qual tão acertadamente lutou, resolve.

Eu gostava que fosse este o legado que Mário Soares visse celebrado como exemplo.

E não me venham com as ideias do costume de que viveu em épocas mais fáceis e menos condicionadas, da globalização à mediatização das sociedades.

Soares viveu com tudo isso. Melhor, acompanhou tudo isso. Simplesmente não confundiu a dureza das tarefas com o modo de as desempenhar, nunca duvidou de que atingiria os seus objetivos mais importantes e nunca teve medo de se expor.

E, se olharmos para a história, é sempre esta a leveza que têm os grandes homens.

*ANALISTA FINANCEIRA

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