Opinião

Voando sobre um ninho de cucos...

Voando sobre um ninho de cucos...

Ao ouvir uma das edições da rubrica Money Talks do "Economist" (on line) de final de janeiro, não pude deixar de me recordar deste fantástico filme de Milos Forman em que Jack Nicholson nos mostra, com maestria, duas coisas: que a fronteira entre a loucura e a racionalidade é quase arbitrária e, segundo e mais perigoso, que muitos de nós se deixam assimilar num Mundo louco porque, apesar de tudo, lhe conhecem as manhas.

O jornalista da Money Talks dizia nessa edição que o World Economic Forum deste ano em Davos, para além de ter sido alvo de muitas críticas (porque afinal o que têm a dizer um bando de milionários que vão chegando e partindo nos seus aviões e helicópteros sobre a austeridade?), se podia resumir a uma palavra: esquizofrenia!

Isto porque a assembleia se dividiu entre uma comunidade, liderada por gente das tecnologias, que anuncia um Mundo novo cujos avanços levarão aos píncaros os novos métodos de produção, de distribuição e, portanto, de riqueza. Um Mundo em que, segundo Bill Gates, a pobreza diminuirá mais nos próximos 15 anos do que em qualquer outro momento da história.

E do outro lado, outra comunidade da "economia real", que assume um futuro muito cinzento sem respostas claras para a disrupção dos métodos de produção, para a concorrência massiva e feroz, para a vida cada vez mais curta dos produtos e dos CEO, para o desemprego e a pobreza.

Como síntese desta realidade esquizofrénica que o "Economist" relatou, a realização em simultâneo das duas conferências de encerramento: " O fim da democracia" e "O fim das doenças".

Aqui chegados, talvez antes da cimeira de Minsk ou da cimeira do Eurogrupo, os líderes europeus, o presidente Putin e o presidente Obama devessem ter revisto "Voando sobre um ninho de cucos".

Talvez percebessem que não é grande feito liderar o Mundo à maneira da enfermeira Ratched. Talvez reconhecessem em cada um e cada uma o "louco" que tentam fazer encarnar num só. Talvez se lembrassem que não vale tudo para impor uma espécie de democracia conformada e reverente. Talvez tomassem consciência de que estão eles próprios prisioneiros de um "cativeiro" que se chama mercado - de dinheiro ou de armas.

Talvez o conflito da Ucrânia ou o problema grego fossem discutidos de forma diferente. Não convencional. Louca.

Nunca saberemos, como no filme, se valeria a pena o esforço. Mas pelo menos voltaríamos a sentir o gosto da liberdade!

ANALISTA FINANCEIRA

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