Opinião

A libertação

A Humanidade vive amputada de metade do seu coração ao não dar expressão à voz divina que emana das mulheres. É uma perda que afeta o equilíbrio do Mundo porque as religiões não estão a conseguir esconder mais esta incoerência rudimentar: almas iguais perante Deus, direitos diferentes perante os poderes religiosos. Nasceste homem? Tens voz na igreja. Nasceste mulher? Queremos-te apenas nas tarefas sociais ou para a liturgia complementar. Nunca terás direito a proferir a última palavra. A Palavra.

Somos uma sociedade contra o racismo, a segregação da opção sexual, a discriminação política. Somos contra tudo o que fere a dignidade humana no respeito à diferença. E, no entanto, as grandes religiões humanas do nosso tempo (cristianismo, islamismo, judaísmo) ficam reféns do poder com que a natureza moldou o Mundo há milhões de anos - a lei do macho.

E, no entanto, regresso ao domingo da Ressurreição. O que vejo? As mulheres que O amavam, manhã cedo, a rumarem ao túmulo carregadas de especiarias para 'curarem' um corpo martirizado numa morte brutal. É a elas que Jesus, de novo vivo, fala em primeiro lugar, ainda antes de ir ter com seus amigos de jornada. Mulheres que ele conheceu na vida e abraçou e amou (no sentido que formos capazes de entender) quando olhou para uma mãe que certamente nunca se libertou socialmente do anátema de ter engravidado antes de casar, ou para uma mulher adúltera prestes a ser condenada à morte apenas porque o sexo ilegítimo era uma prerrogativa masculina, ou ainda para uma prostituta que chora a seus pés porque precisa de mudar e não sabe como.

Pergunto-me muitas vezes: o que achará o Filho de Deus, lá no Céu, olhando um Vaticano unidimensional na sua visão do mundo, aberto apenas a detentores de um pénis. E todas as outras igrejas onde, nos púlpitos do século XXI, apenas homens estão legitimados a transmitir Deus? Obviamente, séculos de domínio masculino do mundo escreveram a ordem social pela pena de legisladores eclesiásticos. Mas está na hora de muitos galileus poderem alertar para o incómodo facto de o mundo não andar realmente em redor da testosterona. A alma é livre, igual, e o poder da Palavra de Deus carece da possibilidade de muitas mulheres a fazerem brotar a partir de outro ADN.

Enquanto a informação circulou durante séculos em poucos pergaminhos ou livros fáceis de proibir, as diversas igrejas controlavam o processo de evolução social. Além disso, a quase totalidade das pessoas não sabia ler. Hoje a informação circula à velocidade da luz, mas nem assim a religião se aproxima mais do conteúdo essencial das coisas - o Amor, a Ética, a prática quotidiana da misericórdia. Absurdamente, religião parece significar somente o poder de não mudar.

Homens brilhantes, 'honoris causa' pelas mais extraordinárias universidades do Mundo, autores de obras de enorme racionalidade, mantêm convenientemente a praxis quotidiana para não porem em causa o seu lugar na organização. E alinham nesta lastimável escravidão a que emprestam o rosto e as cadeias. Sem pestanejarem.

Os ocidentais são muito rápidos em condenar as mulheres de burka, uma notável e óbvia afronta à dignidade humana dos nossos dias, tanto mais que a conformação feminina a esse facto releva até que ponto o espírito humano está impedido de ver a sua própria liberdade. No entanto, o véu da discriminação cobre-as a quase todas, de Leste a Oeste. Elas não sabem porquê. Ainda assim, muitas continuam a amar Deus. Chega de cálice.

Em S. Lucas, a pecadora que levou lágrimas e unguento aos pés de Jesus, foi liberta da sua prisão interior e encontrou um sentido para a vida. Há dois mil anos que as mulheres choram aos pés de Jesus em silêncio. Isso não comoveu até agora os que, século após século, tomaram conta das cadeiras sagradas dos templos. Receio que as lágrimas das mulheres estejam a acabar e a fé para lhe dedicarem o melhor unguento também. Até o vazio parece mais digno do que religiões que discriminam à nascença.

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