Opinião

Apontado à cabeça

A.Um monopólio de aeroportos significa partir ou aterrar em Portugal ao preço que o monopolista quiser e já todos vimos este filme: quantas vezes as taxas aeroportuárias custam mais do que os bilhetes de avião? Uma pergunta: se o aeroporto do Porto for caro, vamos apanhar o avião a Vigo? E em Lisboa, correm para Badajoz? Já agora: se houvesse um monopólio de concessão de portos e uma greve, estávamos agora a exportar o quê? Elefantes cor-de-rosa?

+B. Não adianta reclamar alguma coisa sobre a Casa da Música, qual casa, qual música - chegou agora o novíssimo secretário de Estado amanuense de alpacas obedientes e negou o que o seu antecessor em reunião magna, perante gente digna. Sim, o Estado cumpriria um corte de 20% (como se fosse uma boa notícia...), disse Francisco José Viegas. Não cumprirá, disse o novo rapaz, e exigiu um corte de 30%... Claro, estão aceites as demissões na Casa da Música, não querem eles outra coisa, há sempre uns vergados de profissão disponíveis para entrar a seguir e abanar a cauda em lugares chiques. Novos boys, procuram-se.

=c. Trabalhei com a equipa do Praça da Alegria uns anos. Único grande show de TV no Porto. Uma marca. E por lá andaram velhos, novos, artistas, não-artistas: iam ao "Praça", o Portugal que afinal não precisava de ir a Lisboa para aparecer na televisão, não era preciso ser-se político, futebolista, político, jornalista, político. Ou político. A televisão para o povo, para os emigrantes, para os doentes, para as avós, querida Sónia és tão linda e o Jorge podia ser meu neto, e a sra. D. Luísa que os recebia a todos - e agora são corridos para... um grande projeto... No Porto? (O que estava escrito à porta de Auschwitz senão um sonho?)

D. Quando acordei do Alzheimer destes dias reparei que tinha na mão uma saca do supermercado que fica por baixo da entrada do Alfa, na gare do Oriente da capital, uma sandes para o caminho, uma garrafa de água, um vazio no coração, o coração como um pêndulo que vai-e-volta-vai-e-volta, Porto-Lisboa, Porto-Lisboa, os carros em fila ao domingo à noite para despejar maridos, mulheres e namorados em Campanhã para mais um Alfa esgotado, os filhos que se despedem sempre com lágrimas, mamã, mamã, ou então os desgraçados carregados de sono do comboio das segundas de manhã, 5h45, 6h45, 7h45, superlotados e sem despedidas na estação. Eles fugiram de casa sem beijar ninguém e voltarão na sexta à noite bem tarde se houver bilhete no Alfa esgotado, tudo por uma vida em que não basta ser-se bom, é preciso trabalhar-se na capital para se ser bom, ser-se chefe, ter-se amigos influentes. E de lá manda-se na província. Que cara que é a província! Sem escala. Sem voz. Ó Antunes, despede na província se faz favor...

Z. A vida, na sexta-feira passada, ainda tinha a Ana Catarina, que ia com a mãe a atravessar a passadeira da escola, em Gaia, e um maluco atropelou-a e fugiu e ela morreu. Tinha nove anos, a mãe levara-a de táxi porque estava a chover como nunca, a Ana Catarina chegou à passadeira da escola às 7h30, uma hora antes das aulas porque a mãe é cozinheira e tem de ir cedo, o pai emigrante na construção estava longe, e um doido não sabia o que era a passadeira. No mesmo dia um outro doido matou 27 crianças na América mas eu vejo doidos a matarem crianças nas passadeiras há muito tempo e por isso acho que só um, como dizê-lo, um colecionador de armas de quatro rodas (desculpem, um presidente de Câmara) institui um Grande Prémio de alta velocidade dentro da cidade para dar o exemplo e bloqueia as passadeiras para peões muitos dias antes das provas se realizarem. Lembrei-me da minha filha, por um triz não atropelada a três metros de uma passadeira de peões tornada inacessível por blocos de cimento no ano passado, dias antes do "Grande Prémio Rui Rio", e um semáforo muralhado por vedações que iludiram a visão do palhaço distraído que ia ao volante e me ia matando a miúda. As armas da América são os carros em Portugal. Já devem ter morrido mais de 27 pessoas só em passadeiras, este ano. Obama, por favor, suspende tu o Grande Prémio e chora as nossas crianças.