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Confiança em Salgado destruiu a PT (e o país)

Confiança em Salgado destruiu a PT (e o país)

1 É importante que a Portugal Telecom (PT) seja portuguesa? Para a esmagadora maioria dos leitores é de admitir que a questão seja apenas o preço na hora de pagar a conta.

Mas, até agora, a PT tinha feito um serviço estratégico ao país: liderava boa parte da inovação nas telecomunicações que nos tornavam num caso de estudo no Mundo. Ora, é esta vanguarda que pode estar em risco porque o investimento em novas tecnologias e instalação de rede diminuirão, acabando por atrasar os ganhos de produtividade de toda a economia.

Há coisas por cá que muitos outros países desenvolvidos nem sonham: a rede multibanco funciona exemplarmente, é possível pagar a conta num terminal sem fios em qualquer comércio de rua e há wi-fi grátis e 3G em quase todo o país que permitem até agricultura controlada por telemóvel. Além disso, a expansão da fibra permitiu uma capacidade de transmissão de conteúdos inacreditável. A antiga Zon, e depois a Meo, foram das primeiras operadoras do Mundo a permitir ver televisão sete dias para trás. A Internet nas grandes cidades é de grande qualidade. Isto gera criação de valor e pessoas mais informadas/educadas.

A juntar a isso há o facto de a PT ter puxado mais por conteúdos portugueses para ganhar mercado (do que a líder na altura, a TV Cabo). Mas tudo isto só aconteceu, recorde-se, porque a tentativa da Sonae em comprar a PT obrigou finalmente o gigante a partir-se em dois (PT e ZON), gerando finalmente concorrência no mercado da televisão e Internet.

Ninguém tem dúvida que a PT tem demasiados labirintos e abusou durante muito tempo de uma posição tentacular. Mas era, atualmente, a infraestrutura mais avançada da nossa sociedade de informação e o melhor estímulo a que a Nos mantivesse uma política de investimento forte. Ora, esta perda é irreparável a curto prazo. A perspetiva de chegada de um acionista estrangeiro ao nosso mercado, apenas para somar economias de escala face a uma posição em Espanha ou França, é assustadora. Porque um operador de telecomunicações tem hoje grandes responsabilidades também na preservação da cultura do país que transporta nas suas veias (seja fibra ou frequências rádio).

2 Chegamos aqui em poucos meses da forma mais inesperada possível e sempre através deste baralho de cartas que é a economia portuguesa onde o BES era uma peça central. Na verdade, Ricardo Salgado fez da PT (e dos balcões do banco) a sua caixa-forte. Manipulou toda a gente através de uma "confiança" auditada por todos (Banco de Portugal, BCE, KPMG) e levou atrás de si pessoas tão experientes como a Administração da PT. Dessa forma se criou um buraco de 900 milhões entregues a uma empresa do Grupo Espírito Santos (GES), a Rioforte. E esta, ao falir, pura e simplesmente destruiu o valor da companhia portuguesa na fusão com a Oi.

A nova Administração da PT Portugal veio anunciar entretanto algo que faz sentido: se toda a gente (que estava por fora das jogadas de Salgado) era obrigada a ter prudência nos investimentos, como é que a supervisão do Banco de Portugal - essa sim, que já desde, pelo menos desde dezembro de 2013, conhecia em detalhe o enorme buraco do GES - continuou a deixar vender dívida Rioforte ao mercado? A PT vai processar, e bem, o Banco de Portugal. Quanto mais se conhece deste caso, mais é de pôr as mãos à cabeça sobre a hesitação tremenda de Pedro Neves, chefe da supervisão (desde 2006!, ou seja também no caso BPN e BPP!), e do governador, Carlos Costa. Bem pode este último dizer que a economia portuguesa é vítima de maus gestores. Estamos todos inteiramente de acordo. A começar pelo Banco de Portugal.

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E agora, repare-se: o Governo tem um informador privilegiado (Ricciardi, inimigo de Salgado e amigo de Passos) e uma ministra das Finanças, informada pelo menos desde dezembro do buraco que se está a gerar. No entanto, assiste impávido à queda do maior ativo financeiro nacional sem um aviso sequer. Em nome do contribuinte. Bom, como diz o Bloco de Esquerda em múltiplos cartazes pelo país, "os bancos são demasiado importantes para estarem nas mãos dos banqueiros". Mas a verdade é que também não estão bem nas mãos de um primeiro-ministro que assiste à maior catástrofe económica do pós-25 de Abril em calções de férias, na Manta Rota, lavando as mãos como Pilatos.

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