Opinião

Demasiado veneno no ar

Demasiado veneno no ar

Desde 2008 que a Comissão de Coordenação da Região do Algarve deixou de divulgar os indicadores de qualidade do ar de Faro. Os organismos públicos não têm dinheiro e cortam em tudo e mais alguma coisa. Na verdade fazia alguma diferença saber qual a qualidade do ar da principal cidade do Algarve? Nenhuma. Assim como também não fazia nenhuma diferença cortar as inspeções obrigatórias à qualidade do ar de edifícios públicos, tal como o fez o Governo no ano passado. A alteração legislativa gerou protestos das associações dos técnicos de reparação de sistemas de ar condicionado que trabalhavam em estruturas tão importantes como hotéis, shoppings, grandes empresas, hospitais ou espaços noturnos de diversão. Fale-se com qualquer um destes técnicos e dirão que a quantidade de lixo, pó e bactérias altamente nocivas acumuladas nestes sistemas só podem fazer mal e explicam uma parte dos problemas respiratórios com que hoje se vive sistematicamente nas grandes cidades.

Qualquer um destes casos tem algo a ver com a legionela de Vila Franca de Xira? Depende. Por ano morrem em média mais de 15 pessoas com legionela (fora as que morrem por pneumonia sem que se saiba a causa). Morre é uma de cada vez, ao contrário do que aconteceu desta vez. Daí que ao fim das inspeções obrigatórias conjugue a típica e silenciosa negligência sobre problemas "pequenos" com a "simplificação". Depois acode-se em desespero.

Repare-se: as inspeções às grandes fábricas mantiveram-se obrigatórias, mas nem assim foi possível apanhar casos como os ocorridos em Vila Franca de Xira. Na verdade toda a gente sabe que o Estado não tem capacidade de fiscalizar quase nada com eficácia à exceção dos impostos. Mas a resposta do primeiro-ministro ao fim da lei que obrigava a inspeções dentro dos edifícios é estratosférica. Diz Passos Coelho que acabaram-se com as inspeções para "justamente reforçar a capacidade de inspeção e de prevenção destes casos". Acabar com as inspeções obrigatórias para as reforçar? É extraordinário e inacreditável. Mas o caso de Vila Franca de Xira põe ao de cima de forma mais evidente aquilo que qualquer ser humano compreende instintivamente: viver junto de chaminés industriais não é a coisa mais saudável do Mundo. Por isso se chama tantas vezes à atenção de que o desenvolvimento ou a criação de emprego não justificam tudo - tem de haver regras. Aliás, há uma permanente ironia sobre os alertas ambientais. São um empecilho. Exceto quando as coisas acontecem.

Quando Matosinhos tem uma percentagem elevadíssima de problema pulmonares face à média nacional, esta realidade não pode ser dissociada, penso eu, dos fumos da refinaria da Galp. Não por acaso - justiça seja feita a Ferreira de Oliveira e a Américo Amorim - foram gastos 340 milhões de euros para modernizar a refinaria e torná-la menos tóxica e com menores níveis cancerígenos. Mas... será suficiente? Por que não são públicos os indicadores de emissões das fábricas de todo o país?

2. Claro, agora toda a gente vai olhar para as chaminés de outro modo. Ou para os chuveiros. Ou para os jacuzzis e banhos turcos (49% dos inspecionados pelo Instituto Ricardo Jorge tinham legionela...!) E limpá-los. Até este caso ficar esquecido. Mas, em simultâneo, hoje, o Governo prepara um Orçamento supostamente verde em que agrava o custo sobre o gasóleo e não isenta as empresas de transporte público deste aumento. Maior absurdo é impossível. É a prova final de que se podem colocar os rótulos que se quiserem sobre as coisas com o intuito de fazer das pessoas estúpidas. "Verde"? Não há "chaminés" mais sistematicamente danosas no quotidiano dos cidadãos das cidades que as partículas libertadas pelo petróleo dos automóveis. Dedicar por exemplo o aumento dos combustíveis à melhoria da rede e qualidade dos transportes públicos era o mínimo que poderia fazer em nome de qualquer centelha de inteligência. Mas não. A fatura segue sempre para o Ministério da Saúde. E o Governo, com a sua extraordinária máquina de marketing, ainda acaba bem na fotografia porque os hospitais, de facto, são muito competentes.

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