Opinião

Despeça-se já?

O Diogo Vasconcelos vai regressar amanhã ao Porto, vindo de Londres, e desta vez não será apenas por uns dias, ou um regresso provisório à sua casa perto do rio Douro e da Foz, ou aos seus pais e amigos. Desta vez fica cá, para sempre. Nestes dias os seus amigos trocaram mensagens ou deixaram 'posts' no seu Facebook. Escolho simbolicamente as do presidente da República: "A sua morte prematura deixa-nos profundamente abalados. O seu desaparecimento súbito, numa altura em que todas as promessas da vida se abriam diante de si, confunde-nos e interpela-nos sobre o significado da existência terrena. Portugal perdeu hoje um dos seus melhores talentos".

A história do Diogo é longa e difícil de encaixar neste pequeno texto, apesar dos apenas 43 anos de vida roubados por uma septicemia fulminante. Começando pelo fim: ele era neste momento um dos mais entusiastas dinamizadores do projecto europeu "Innovation Union", criado na sequência do seu relatório "Reinventing Europe Through Innovation". Durão Barroso, de quem foi sempre amigo no PSD, abriu-lhe as portas de Bruxelas e colocou-o em grupos estratégicos de discussão sobre o futuro da economia europeia, e que incluíam as palavras-chave da sua vida: inovação, Internet, empreendedorismo, capital de risco, sustentabilidade, social-democracia.

Tive a oportunidade de trabalhar com ele, em 1998, durante três anos, numa revista que criou no Porto, chamada Ideias & Negócios. Título: "Despeça-se já e crie a sua própria empresa". Este título, "Despeça-se já", marcou a vida dele, a minha (que também me despedi do jornal Público para ir dirigir a revista) e a de uma geração de empreendedores. Por aquelas páginas passaram talentos atrás de talentos (Critical Software, Primavera Software, Mobicomp são apenas alguns nomes indiscutíveis) e pôs os holofotes sobre quem arriscava.

No editorial da revista 1, o Diogo escrevia: "Demita-se de esperar. Demita-se de explicar ideias novas a quem só tem soluções antigas. Demita-se dos adiamentos, dos sonhos por concretizar. Enfrente-se a si próprio. Assuma a sua marca, marque o seu trajecto. Construa a sua liberdade. Crie a sua própria empresa". Criou várias e deu estímulo para se criarem centenas de outras.

Em 2002, entretanto, o Diogo foi criar a UMIC - Unidade Missão da Inovação e Conhecimento (no Governo de Durão Barroso) para estimular o "Governo electrónico" e a digitalização dos serviços do Estado (de que hoje estamos a beneficiar). Foi um trabalho por acabar, dado que o PS ganhou as eleições em 2005 e as cores partidárias são fatais, apesar da competência. Um ano depois, o Diogo sai do país e vai trabalhar como estratega em inovação da norte-americana Cisco, com sede europeia em Londres.

Dando um salto no tempo: Serralves, 3 de Fevereiro. Ele era o orador convidado da conferência "O Imaterial". Sala cheia. Uma noite extraordinária (mesmo) em que pudemos ouvi-lo sobre as novas ideias para o futuro comum deste planeta. Nesse mesmo dia o Diogo havia estado no "1.º Porto Tech Media", de que era impulsionador, e cujo objectivo passava por pôr a Invicta na rota europeia das "start-ups" e capital de risco. Por esses dias, nas conversas de corredor, falamos de Beirute, Israel e da Palestina, onde ele estimulava a criação de empresas de tecnologia, provando que a paz também se fazia com negócios.

Não sei quantas tarefas ficaram a meio. Basta pensar que lhe faltava pelo menos o dobro da vida, sobretudo agora que o seu cartão-de-visita abria todas as portas estratégicas neste planeta... E este é o drama: há, de facto, pessoas insubstituíveis. Com a sua morte, torna-se impossível fazer com que Portugal beneficie da sua influência vanguardista em tantos centros de poder. E perdemos alguém que nos trazia, em primeira mão, as dicas do futuro da sociedade do conhecimento. Resta-nos acreditar naquilo em que ele acreditava: que o empreendedorismo, seja em que área for, é a chave de mudança do Mundo. Mas não há ninguém para fazer a rota Mundo-Foz como ele. "Despeça-se já"? É difícil despedirmo-nos de ti.