Opinião

Estender a passadeira a Rio

Estender a passadeira a Rio

Rui Rio parece algo surpreendido/indignado pelo vazio. 50 "Homens do Norte" + Ele, num abaixo-assinado contra o poder central, e nada. Nem Passos, nem a ministra Cristas, nem o amigo Cavaco lhe responderam até hoje, já lá vão duas semanas, diz o JN. Ao fim de quase 12 anos à frente da Câmara, o presidente descobriu finalmente duas coisas: a primeira, a de que podia usar o poder reivindicativo da segunda cidade do país por causas justas; a segunda, a de que por muito justa que seja a causa, talvez o Governo não o queira ouvir. Não porque ele não seja importante (aos olhos de Lisboa alguém que fez frente a Pinto da Costa é um deus moderno). Mas os grandes problemas do Porto ou do Norte nunca fizeram parte do ADN de Rio. Aliás, Lisboa aprecia-o, à distância, "lúcido", "nacional", sério e poupado. De repente quer milhões como o Fernando Gomes? É estranho.

Esta "bomba atómica" do abaixo-assinado "dos notáveis do Norte" deve fazer rir lá pelo Terreiro do Paço. Um exemplo: há dias expliquei a um portuense a viver em Lisboa que toda esta revolta tinha por base uma dívida de 2,4 milhões de euros. "Mas não é 2,4 mil milhões de euros? De certeza?".

Quando se pensa na reabilitação da Baixa da segunda cidade do país, imagina-se uma coisa grande, negociada com os primeiros-ministros, um desígnio nacional. No Porto isso não existiu. Dir-se-á que são os tempos de crédito difícil e da prudência como guia. Mas, se é assim, 2,4 milhões de euros valem uma guerra Porto-Lisboa?

Nos últimos tempos houve três causas, do Norte (e não apenas do Porto), que podiam ter suscitado posições de força do líder Rui Rio: uma, a errada opção de Sócrates pela linha ferroviária Lisboa-Madrid em vez da bitola europeia a Norte para as exportações portuguesas; outra, a entrada em vigor das scut sem sistema de pagamento acessível aos galegos - foi ruinoso para o turismo e comércio do Norte; por fim, talvez mais escandaloso ainda, a entrega do aeroporto Francisco Sá Carneiro ao monopólio privado da francesa Vinci (como é que a Comissão Europeia acha que isto não é um monopólio é para rir...).

Perante assuntos desta dimensão, o presidente da Câmara do Porto (e do Eixo Atlântico) o que fez? Indignou-se, disse umas frases (não chamou os notáveis do Norte) e... zero de resultados. Todavia, perante a pequena reabilitação da sua "Baixa", deita o mundo abaixo! Mas Rui Rio sabia que ia ser assim. Quem protesta é posto de castigo. No Porto, nestes 12 anos, fez sempre isto aos adversários.

O caso das corridas de automóveis é um bom microexemplo: desde 2005 que a Câmara do Porto organiza o Circuito da Boavista em perímetro urbano. Ao longo de todos estes anos a equipa de Rui Rio fez sistematicamente a mesma coisa: respeita (e bem) o acesso dos carros às garagens das ruas entaipadas de vedações. Só que, em simultâneo, bloqueia algumas passadeiras para peões com blocos de cimento ou railes metálicos. É estupidez pura fazer-se isso com quatro ou mais semanas de antecedência, impedindo um atravessamento em segurança a crianças e idosos - a toda a gente. Há oito anos que os jornais demonstram a Rui Rio que a organização só necessita de fechar as passadeiras na véspera das provas - como fazem com as garagens. No entanto, nada muda. Porquê este desprezo pelos (peões) cidadãos? Porque pode.

Bem vistas as coisas, os 2,4 milhões de euros de buraco da reabilitação são quase iguais ao custo das corridas (da qual o Turismo de Portugal suporta 1,5 milhões de euros). Os milhões enterrados em infraestruturas para transformar as avenidas para um Grande Prémio não voltam. Entretanto, na minha rua, a 200 metros do 'Circuito', nunca houve dinheiro para se construir uma parte do passeio. Naquele troço (numa curva), circula-se pela berma, a medo porque os carros passam depressa... Gostava que a Câmara percebesse o que são semáforos e peões... Mas há muitos anos que a minha rua está tão longe da Avenida dos Aliados quanto a voz de Rui Rio está de Lisboa. Eu espero há oito anos, ele ainda vai em 15 dias... Sorte minha: tenho a certeza que esta será a última vez que verei passadeiras bloqueadas na minha cidade.

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