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Opinião

Galp, a nossa marca de ar

Galp, a nossa marca de ar

1 - Desculpem, mas ajudem-me a entender: estamos em 2011 e o JN de sábado dizia que a refinaria de Leça, da Galp, emite partículas cancerígenas 15 vezes acima do nível admitido? Depois de 350 milhões de euros de investimento, dos quais 150 milhões em ambiente e segurança? E é tudo normal, tranquilo - inauguração com o presidente da República, presidente de Câmara de Matosinhos, Imprensa, etc...? Interrogo-me com os meus botões: o que seria a poluição antes dos 150 milhões investidos? E como terá sido a real qualidade do ar na Área Metropolitana do Porto ao longo dos últimos 10 ou 20 anos?

Antes de avançarmos, um ponto importante. Tenho consideração pelo presidente da Galp, Ferreira de Oliveira, curiosamente um homem do Norte. Poucos em Portugal e na Europa sabem tanto como ele do negócio petrolífero. Mas estes problemas existem e, sejamos claros: confio pouco nos accionistas da Galp.

Quem são? Américo Amorim tem 33,4 por cento; a petrolífera italiana ENI, percentagem igual; a holding estatal Parpública, 7% e a Caixa Geral de Depósitos, 1%. O restante capital pertence a pequenos accionistas. Quem aprova investimentos ambientais? Américo Amorim é um empresário genial, mas duvido que questões como esta sejam uma prioridade da sua agenda. Os italianos da ENI consideram a Galp um mero investimento financeiro. E o accionista Estado, como sempre, é zero - basta ver-se o que era a Galp quando o Estado foi o dono... Aos accionistas em geral, sabemos todos, o que interessa é a rentabilidade. O ar pouco lhes importa. Sobretudo quando estão longe.

Não sou ingénuo ao ponto de admitir que há refinarias sem custos ambientais. Não foi por acaso que Lisboa desmantelou a que tinha na zona que é hoje o Parque das Nações (Expo 98). Por isso, preocupa-me que esta contaminação do ar se mantenha (e a água do mar?, e os solos contaminados?), mas deixa-me estarrecido o futuro da qualidade do ar da Área Metropolitana do Porto. Porque, com a privatização total da Galp e a fraqueza do capital nacional, ela será mais tarde ou mais cedo completamente detida por estrangeiros (ou por Américo Amorim + estrangeiros). E não me parece que alguém se vá preocupar muito sobre se 'aquilo' polui muito ou pouco. Imagino que uma Galp com centro de decisão em Luanda, ou São Paulo, ou num país árabe, tenha quem se apoquente com a má qualidade do ar de "something called... Lê-ssa?... Could it be?". Quando a Galp for uma petrolífera sem qualquer consciência social (como é a prática no sector), os cidadãos estarão sozinhos. Porque o Estado falha sempre.

Exemplo? A revista de sábado do DN, "Quociente!, trazia um magnífico trabalho sobre como a BP está a escapar entre os pingos de chuva às indemnizações da gigantesca tragédia do Golfo do México. Nem Obama teve mão para castigar a sério a petrolífera depois de tanta incúria anunciada. Os esquemas das empresas do petróleo para conseguirem novas explorações em áreas protegidas (ex: Alasca) ou omitirem fugas para o meio ambiente são alguns dos grandes escândalos da economia actual.

Mas os tempos são estes. O mais importante é a refinaria "ajudar as exportações" ou "aumentar os postos de trabalho", como se fossem acções beneméritas. Pede-se então que, pelo menos, mais produção e mais lucros coexistam com máxima protecção ao milhão de habitantes que respira o ar da refinaria. Última nota: os cidadãos têm de ter em conta que sem jornais com impacto nacional que noticiem estes problemas, sem televisões e rádios no Porto, não há defesa perante estes problemas cruciais. A opinião pública é a única força capaz de obrigar as empresas a cumprirem as suas obrigações. Para isso existir tem de haver jornalismo livre.

2. Por falar em coisas absurdas: três meses depois da realização das corridas de automóveis, a Câmara do Porto mantém sem funcionar os semáforos do troço final da Avenida da Boavista. Os utilizadores do Parque da Cidade, os estudantes das escolas que por ali transitam, etc., não têm como atravessar o "autódromo" (a avenida) em segurança. Está à espera que alguém morra atropelado, dr. Rui Rio?