Opinião

Governo nem uma greve merece

Governo nem uma greve merece

1. O país preso por arames e uma greve geral, de novo. Inútil porque representa um tempo que a impotência defronta a prepotência atroz. A expressão cívica das pessoas, mesmo que massiva, é olhada como caricatura, uma válvula de escape, com resultado quase zero. Hoje parece evidente que o país não se fartou apenas da austeridade, fartou-se primeiro da cabotinice, impreparação e, por fim, arrogância de Pedro Passos Coelho e Vítor Gaspar. E a única coisa eficaz para mudar o curso da História é pressionar Cavaco Silva para que não se perca mais tempo. O Governo já não existe há muito tempo.

O presidente da República labora num engano trágico para a nossa vida desde o 15 de setembro. Aquele dia é cristalino sobre a sensação de engano dos portugueses, sobre a queda da máscara, sobre um ideário arrasador quanto ao esmagamento para que caminhava a economia portuguesa em nome de um processo de liberalização a qualquer custo que nos torna numa espécie de Panamá dos grandes interesses financeiros e económicos. Pode dizer-se que Passos Coelho enunciou muitos destes princípios na campanha eleitoral. Mas a maioria dos portugueses queria mais depressa ver-se livre de Sócrates do que ver com atenção quem eram os amigos do líder do PSD e qual o seu objetivo primeiro: impor uma modernização do país à moda de António Borges e Dias Loureiro.

É totalmente falso que a estabilidade política valha mais que a descrença total de empresários e trabalhadores. O presidente da República sabe melhor que ninguém que o Conselho Económico e Social, onde estão representados os sindicatos e confederações sindicais, tem uma unanimidade nunca antes vista contra o irrealismo de Vítor Gaspar e Passos Coelho. Aquelas reuniões são o melhor exemplo do absurdo a que se chegou. Portanto, a única coisa eficaz não é a greve, é cercar Cavaco Silva onde quer que ele vá, até que acorde. Fazer um cordão humano permanente ao Palácio de Belém. Lembrar-lhe todos os dias que nos está a condenar a ir ao fundo, agarrados a pessoas absolutamente incompetentes e algumas delas amorais.

2. Exemplo desta tragédia é o que se passa com a liquidação dos famosos swaps. Os gestores das empresas públicas seguraram o risco da taxa de juro com contratos (milionários) que enriqueceram a Banca. Os mais ousados fizeram até contratos especulativos que os tornaria brilhantes magos da alta financeira (e risco à custa dos contribuintes). Entretanto... pagar isto entra na lógica das urgências do Governo. Porquê? Amortizar contratos com perdas potenciais exatamente neste momento é fazê-lo numa altura em que os juros dificilmente poderão descer mais. É pagar a 'multa' tendo por base o valor mais baixo da penalização e não o seu valor médio (perder mais do que se perderia agora é praticamente impossível). Apesar do desconto feito ao Governo na renegociação, são 800 milhões para pagamento imediato aos bancos. Entretanto não há dinheiro para os subsídios de férias, o que significa mais um tiro no turismo. Que gente é esta?

3. Continua a fazer impressão por que razão não se discute essa decisão 'técnica' de passar a aplicar a quase totalidade do Fundo de Estabilização da Segurança Social apenas em dívida portuguesa. Atualmente as nossas futuras reformas estão colocadas a 60% em dívida pública nacional e os restantes 40% em outros ativos financeiros, para diversificar o risco. Mas Gaspar quer meter o dinheiro todo em dívida nacional. A pergunta que se coloca é: Portugal corre ou não o risco de necessitar de um perdão de dívida? Sabemos que Pedro Passos Coelho e Vítor Gaspar não o querem, mas há quem ache que não conseguimos sobreviver com 130% de dívida pública face ao PIB (produto interno bruto). Ora, estamos a ser entalados contra a parede pelo Governo. As gerações mais velhas e os trabalhadores em geral vão ser as principais vítimas do perdão de dívida do país, caso ele exista. E se tal acontecer será como discutir se queremos destruir boa parte das reservas da Segurança Social (para ter menos dívida e menos juros) ou, em alternativa, não ter retoma económica porque o défice é igual aos juros da dívida. É sinistro. É o que se chama ser-se ultraliberal com a vida dos outros.

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