Opinião

Grândola, vila pequena

Grândola, vila pequena

Ao longe, não se vê, não se ouve, não se percebe o que é. Uma música?, uma manifestação?, um milhão de pessoas?, muitos milhões? Sábado 02.03.2013: Portugal visto de fora da Europa é nada. (Na melhor das hipóteses, um fait-divers, uma notícia de rodapé, uma breve de jornal de elite...). Portugal na rua, farto do Governo, cansado da troika, desesperado. As páginas online nacionais mostram a força das palavras, do "Grândola", fotos esmagadoras. Gente que sofre. Um país que fala sozinho. Que enlouquece coletivamente. Que fica a ver-se ao espelho da TV como se aquela dor fosse captável por câmaras. Alguém quisesse saber, lá fora. Cá fora ninguém ouve.

O Mundo tem mais em que pensar. O dinheiro mais para onde ir. Obama está a cortar milhões de milhões no Orçamento americano e o país começa a paralisar serviços públicos. Os chineses continuam sem conseguir respirar muito bem em Pequim, em Xangai... Há cada vez mais lojas de luxo na China mas 16 das 20 cidades mais poluídas do Mundo estão lá. Têm fábricas e emprego mas escasseiam céu azul e água limpa.

Os japoneses estão a perder a cabeça e elegeram um primeiro-ministro radical. Há uma guerra cambial para tentar tirar o país da crise e o iene já se desvalorizou 35%. Claro: os americanos não vão ficar a ver. Os chineses também não. Dona Merkel: vem aí mais desemprego em cima do euro forte e nem a senhora escapa.

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Depois há Roma, duplamente em ruína: o cataclismo 'Grillo Berlusconi' ressuscita a velha pergunta que nos custa os olhos da cara em juros: o euro resiste? E no Vaticano romano, pútrido, nem o Papa aguenta o nauseabundo odor do poder da Cúria, do tráfico financeiro, da testosterona. Que diria Pedro a Paulo?

Grândola, terra da fraternidade. A única no Mundo? O "Diário Económico" escrevia há dias que o contrato de privatização da ANA já deixou estipulado que o vencedor, a empresa francesa Vinci, tenha o exclusivo da construção do novo aeroporto de Lisboa sem necessidade de concurso. Magnífico. Negócios em cascata em que o fiador último é o Estado... Siga. E o Governo prepara a venda de mais um monopólio a privados: o dos Correios. Sempre a mesma estratégia - tornar o país numa placa giratória de capital sem pátria. Os portugueses pagam a conta. Sempre.

Passos Coelho aplica a cartilha dos consultores financeiros mundiais. O nosso António Goldman de Sachs Borges é um bom maestro para a coisa. Já lhe renovaram, aliás, o contrato para mais dois anos ao lado de Passos. Ele e outros primos Sachs saltitam de galé em galé para conferir se no porão os escravos remam. Se sim, mete-se o dinheiro aqui, não acolá, aqui vai dar muito e ali não. Se não, vão-se embora. E não há "criação de emprego".

A equação destes boys é a da máxima remuneração para o capital. Ensina-se em todas as escolas de "Economia" e "Gestão", dá galões aos MBA e doutorados. Istambul, Dubai, Singapura, Xangai, Tóquio, São Paulo: triliões de dólares a circular para formar investimentos que geram crescimentos súbitos. Talvez incobráveis. Pouco importa. Há que garantir, hoje, rentabilidades triunfais aos rebanhos de acionistas anónimos.

Wall Street, City de Londres, offshores variados: dinheiro que faz dinheiro. Financeiros e governantes alinhados pela frenética mistificação do "progresso". Votos dá, realmente, a curto prazo. Depois, as pessoas vivem para servir a gigantesca dívida e arrependerem-se por muitos anos.

"Portugal" visto de longe? Cada vez mais Ronaldo, Mourinho, a Seleção de longe a longe. Ou seja, uma excentricidade futebolística, sem Grândola. "Portugal" é um ponto minúsculo no mapa. Só existe para nós. Portanto: temos de cuidar de nós próprios. Sermos menos dependentes do dinheiro externo, renegociarmos com dignidade os acordos com a troika e, essencialmente, regressarmos à honradez de uma vida talvez mais pobre, talvez mais verdadeira. Estamos sozinhos e temos de sair deste ciclo "Durão, que escolheu Santana, que nos fez correr para Sócrates, que nos meteu em Passos, que nos fará escolher Seguro".

Acredito no seguinte: vamos sair daqui da forma mais inesperada possível. É sempre através de uma pequena coisa que tudo se quebra e recomeça. Uma canção já é um bom princípio.

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