Opinião

A natureza também faz ondas

A natureza também faz ondas

As ondas gigantes desta semana não são novas mas acumulam, juntamente com granizo inesperado ou cheias no interior, uma tendência cada vez mais consistente: a da aparente desregulação da natureza que conhecíamos. Não é apenas cá. Há mais de duas semanas que o interior norte dos Estados Unidos está sob uma vaga de frio permanente e extrema que mata todos os dias, o litoral inglês tem sido devastado por semanas de fúria do mar e em Espanha e França as ondas de segunda-feira mataram quatro pessoas.

Estes episódios fazem lembrar a tese de um cientista canadiano, Andrew Weaver, que se traduziu em 2004 num filme notável sobre este assunto - "O dia depois de amanhã". A teoria diz que, se há cada vez mais calor no Planeta (o que é verdade), e o gelo dos polos está a derreter gradualmente (o que também é verdade), então os circuitos oceânicos registam interferências nas condições climáticas. Todo o Planeta sofre devido à progressiva alteração da circulação das correntes de água fria e quente (a termoalina). A verdade é que os níveis de "segurança" para a vida na Terra indicam que não deveríamos ter mais de 350 partes de dióxido de carbono (CO2) por milhão na atmosfera e já vamos em 395.

O filme extremava estes fenómenos com um arrefecimento súbito das massas de ar e de água, o que levava ao surgimento de tempestades que provocavam o caos pelo Mundo fora - bolas de granizo do tamanho de bolas de golfe a caírem sobre Tóquio (ou Matosinhos), tornados devastadores em Los Angeles (ou Paredes) e um arrefecimento súbito do ar nos Estados Unidos a ponto de tornar impossível a vida fora de casa.

Esta tese hollywoodesca foi contraditada pela maioria dos cientistas do clima. Um fenómeno extremo desta natureza levaria a uma catástrofe humanitária sem precedentes e não pode suceder de forma tão brusca. Mas devíamos tirar conclusões em Portugal (e na Península Ibérica) de fenómenos climáticos extremos cada vez mais frequentes.

A Península Ibérica é uma espécie de "molhe" da Europa, claramente espetado no meio do mar, literalmente à mercê das tempestades e das mais intensas alterações climáticas, como demonstram variados estudos. E, talvez por consequência disso, quando se veem imagens de satélite, percebe-se cada vez mais a desertificação do interior de Espanha - um território onde predomina a cor amarela da terra seca do Centro e Sul. Em Portugal ainda há verde, mas dois problemas ambientais conjugados contribuem para uma destruição progressiva: os fogos de verão gerados por cada vez mais elevadas temperaturas em dias continuados; e, como se vê ano após ano, a erosão costeira com o avanço do mar.

Logo nas primeiras fortes chuvadas deste ano o JN titulava, e bem, que os incêndios de verão do Caramulo provocaram cheias súbitas em Águeda porque, não havendo árvores nas serras, a água não entra no solo e acelera a velocidades vertiginosas.

Continuar a fomentar uma floresta de crescimento rápido (a monocultura de eucalipto ou pinheiro), altamente inflamável, reforça as condições para as tragédias que conhecemos. A monocultura destas espécies em vastas áreas vai contra a história natural do país - onde o castanheiro, carvalho, nogueira, sobreiro ou oliveira eram a regra e hoje são exceções. É uma fatalidade que nos vai tirar terra, água, biodiversidade e agricultura mais produtiva.

Da mesma forma, continuar a defender casas através de mais molhes, ou permitir-se a construção perto da água de estruturas como bares e restaurantes, tem de ser hoje encarado como um erro ou, pelo menos, como um risco por conta de quem o quer correr.

Não se fazendo nada contra isto, continuaremos a gastar o dinheiro público para defender o indefensável. As alterações climáticas não dependem só de nós, mas da poluição industrial global, do excesso de consumo de carne (dado o brutal peso de cada bovino em consumo de água e rações), da circulação automóvel em detrimento do transporte público, etc....

Temos de optar por não estar sempre a reconstruir os mesmos molhes ou a apagar os mesmos incêndios. É preciso mudar. Coisa difícil de fazer porque os bens e interesses das pessoas falarão sempre mais alto nos média do que as óbvias leis, irreversíveis, da natureza.