Opinião

Heróis do mar, pobre povo

Heróis do mar, pobre povo

1. A intenção do Governo de aplicar mais 300 milhões na defesa da costa é um gesto político pavloviano, inverno sim inverno não, para defender situações indefensáveis a prazo. O mar avança. Basta ver o que está a suceder há décadas. Basta olhar para onde estava a cidade de Espinho e onde está hoje. Basta lembrarmo-nos de como se perderam praticamente todas as dunas primárias e secundárias nas praias da nossa infância.

A agitação oceânica, assim como as chuvas torrenciais capazes de provocar cheias e desabamentos, estão a tornar-se mais frequentes, como aliás repetidamente têm dito os especialistas em alterações climáticas - e que diariamente continuam a ser desacreditados (sobretudo em dias em que está tudo tranquilo). Como infelizmente estão certos, as coisas vão agravar-se. Assim sendo, não adianta despejar milhões em molhes e outras barreiras na costa cujo único efeito prático é gerar erosão uns quilómetros mais a sul.

Temos de começar a gastar o dinheiro a apoiar as pessoas que têm de sair da primeira linha em frente ao mar - com as suas casas, lojas e restaurantes. Se não o fizermos, um destes invernos, estamos a lamentar pelas suas vidas. Basta ter ouvido a senhora que vive no Furadouro a explicar como uma onda invadiu a sua casa - num primeiro andar - para não se ter dúvidas nenhumas sobre as tragédias que se anunciam. Perante isto, a solução não é continuar a fazer mais paredões.

Recorde-se que chegamos a este estado caótico não apenas pela força do mar. É difícil admitir-se do ponto de vista público a falta de milhões de metros cúbicos de areias que todos os anos os rios traziam para as zonas litorais. Hoje praticamente já não há rios sem barragens da nascente à foz e agora temos de gastar milhões a retirar a areia que prejudica a navegação fluvial, ao mesmo tempo que gastamos milhões para colocar a (mesma) areia que por efeito natural não chega às praias. Salazar errou muito com uma tão sistemática construção de barragens e, pasme-se, século XXI, ainda estamos a construir mais barragens de rendimento elétrico escasso destruindo rios e ecossistemas naturais que a prazo nos apresentarão a conta. O que está a acontecer a Trás-os-Montes com as barragens do Tua, Tâmega e do Sabor traduz-se, simultaneamente, em crimes económicos porque perpetua rendas a favor da EDP, Iberdrola ou outros por muitas décadas. São também crimes ambientais e históricos pela devastação que provocam naquela região.

Todos os portugueses ficam com um dívida de 1500 euros pela construção de um plano de barragens socrático cuja finalidade essencial foi "engordar o porco" da privatização da EDP, arranjar umas moedas para o défice e pôr as empresas do betão a construir mastodônticas edificações em paisagens protegidas. Como o catedrático Joanaz de Melo explicou no programa de Medina Carreira, esta parceria público-privada da energia vai pôr Portugal a pagar uma das eletricidades mais caras do Mundo. E não é por ser limpa. É por ser um negócio essencialmente financeiro. Um jackpot pago pelos consumidores, oferecido pela dupla Sócrates/Manuel Pinho e prosseguida pelo Governo Passos/Portas.

2. Como aqui se disse em devido tempo, a nova legislação de julho do ano passado, que regula novas plantações de espécies florestais, abriu caminho a uma corrida ao eucalipto. Os números mostram que 92% dos novos pedidos são para plantar eucaliptos num país que precisa desesperadamente de ordenamento do território e não de eucaliptais por todo o lado.

Como há dias noticiou o JN, os bombeiros mortos no Caramulo foram homenageados pela Junta de Freguesia de Guardão, organizações ambientalistas e outras entidades, através da plantação de carvalhos e sobreiros em áreas ardidas. É fundamental organizar a floresta com espécies autóctones e terrenos agrícolas que funcionem como zonas-tampão ao massacre do fogo incontrolável. Sem isso é despejar dinheiro no negócio do combate aos incêndios.

Na costa e na floresta ou se previne antes ou as catástrofes deixam-nos sem hipótese de defesa. Não são acidentes naturais. É péssimo planeamento. O pior cego é o que não quer ver.