Opinião

Metade do país vazio

O abandono do interior é um dos principais responsáveis pela situação de crescente pobreza a que chegamos. Com isto geramos dois problemas gravíssimos: passamos a importar mais alimentos com dinheiro que sabemos agora não ter e concentramos cada vez mais pessoas nas manchas em redor de Lisboa e Porto. A conta está aí: milhões e milhões de euros em investimentos públicos milionários para tornar estas vastas regiões habitáveis e com mobilidade. Mas uma vida pior para todos.

Em consequência, estes factores convergiram para gerar o mesmo efeito, fatal: obtenção de crédito para se construírem casas em vastas áreas litorais. São exactamente as dívidas de crédito à habitação (e de projectos imobiliários não vendidos) que tornariam a saída do euro numa tragédia arrasadora para o comum dos cidadãos e não apenas para as empresas e o Estado. Não compreender isto é estar a milhas da realidade.

Com a concentração nas grandes cidades foi também inevitável criar um Estado cada vez mais assistencialista porque há cada vez mais pobreza, depressão e criminalidade nas grandes cidades. E aumentaram as franjas de população que sentem o direito a exigir a garantia da sua sobrevivência - sem agricultura de subsistência que lhes valha. A subsidiodependência atinge igualmente pessoas qualificadas, em parte porque estão todas a lutar pelas mesmas oportunidades nos mesmos locais.

Em simultâneo, a população mais jovem depara-se com a incapacidade de gerar o seu próprio emprego. Dantes, a terra ou o pequeno comércio local eram usados para as novas gerações aprenderem o que significava o trabalho, ganhando gradualmente competências em negócios que um dia seriam seus. Hoje isso não existe. Temos de gerar empreendedores in vitro (nas universidades).

Além disso, quem vive mais próximo da natureza sabe o que significa preservar o território. Não havendo comunidades fortes na sua defesa, é fácil aniquilar terras ou rios durante décadas em favor de uns accionistas distantes a que ninguém se opõe só porque as grandes empresas "investem" e "criam empregos" - esses novos dogmas das sociedades modernas a que virtude nenhuma consegue fazer frente.

Só o que é sustentável gera empregos para sempre. As barragens do Tua e do Sabor, actualmente em construção, são o melhor exemplo da loucura que é destruir rios para produzir 0,5% de energia do país quando, no essencial, são um negócio de especulação energética a ser paga a prazo pelos consumidores décadas a fio. Que futuro nos prometem os potenciais donos (alemães? brasileiros? chineses?) da EDP?

As greves dos transportes urbanos são outro bom exemplo de como a lógica dos sindicatos pode, por efeito colateral, reforçar ainda mais a pobreza do interior. É que a CP extingue linhas ferroviárias centenárias sem que este assunto desperte qualquer compaixão comparável ao fim da linha 22 da Carris... Pode dizer-se: uma coisa não invalida a outra. Mas o dinheiro não estica e fica junto de quem tem mais capacidade de reclamar - nas cidades, junto dos media.

Uma situação-limite como a que estamos a viver seria o momento certo para motivar parte da população em direcção a uma nova vida. Estimular oportunidades e apoios na metade do país abandonado. O Estado poderia canalizar despesas do litoral para potenciar a instalação de pessoas e novos negócios nos concelhos esquecidos, associando a isso uma nova política do uso do solo agrícola e reforçando ainda mais o turismo. Curiosamente, o Orçamento de 2012 faz exactamente o contrário: corta a reduzida bonificação fiscal de estímulo à instalação de empresas no interior.

Dívida, desemprego, greves... Um ciclo autodestrutivo, sem saída à vista. Uma ideia realmente diferente? Está na hora de utilizarmos um recurso nacional essencial: a metade do país que deixamos sem produzir e a precisar de vida. É uma grande parte de Portugal. Podemos apoiá-la com o mesmo dinheiro que queremos dar ao investimento estrangeiro, só que desta vez nesse "novo país" que já esquecemos. Sem importações nem dívida. E garantiríamos o futuro do nosso território.

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