Opinião

Novas conversas em família

Novas conversas em família

1Um ponto prévio: em teoria, poderia parecer aos olhos do espectador normal que o primeiro-ministro tinha um desafio complexo. Aquelas pessoas iam "passar-se" em direto e exprimir a raiva que se vê na rua? Por mais filtradas que tivessem sido pelas empresas de recursos humanos que as selecionaram, esse risco existia? O programa tem essa "ficção". Obviamente, rapidamente se percebe que aquilo está feito para que o convidado brilhe. É a televisão em todo o seu esplendor e a prova de que um show mediático pode ter muito pouco a ver com a realidade.

Nada de novo. Isto é exatamente assim, como se viu nas presidenciais norte-americanas ou em Espanha. Por isso, obviamente, hoje ou amanhã o medroso António José Seguro dirá pressurosamente que sim, que afinal vai ao programa, depois de ver Passos a sair de lá com o tapete vermelho. É por isso que as pessoas duvidam, e com razão, da coragem do líder do PS - como se vê até por estas pequenas coisas. O homem não é capaz de dizer sim ou não, em devido tempo, nem a um programa de televisão.

2 O desenvolvimento do debate provou quão valiosos são os jornalistas que sabem fazer as perguntas certas. Os cidadãos colocam questões temáticas, não têm hipótese de retorquir por força do tempo e ficamos a saber muito pouco. A dias de apresentar um Orçamento de Estado de novo fortemente restritivo, o timing para o primeiro-ministro enfrentar aquelas pessoas não podia ser melhor (para ele). Foi uma espécie de revisão da matéria dada (a austeridade explicada devagarinho ao povo) e zero de novidades ou de confronto. A RTP tem de dar uma oportunidade séria ao pivô Carlos Daniel de poder fazer uma entrevista a Passos Coelho - como se viu nos três minutos finais do programa.

3 Apesar da noite morna, houve um tema escandaloso do ponto de vista político. À questão sobre a Zona Franca da Madeira, Passos anunciou que o Governo se está a bater pela reabertura do offshore. Ainda que com diferentes condições fiscais face às que pretendia Alberto João Jardim, ficámos a saber que Portugal volta a alinhar na absoluta hipocrisia europeia quanto aos offshores. Pode dizer-se que se outros países têm, a Madeira perde por não ter. Mas, por esta lógica, nunca se limpará o cancro das zonas francas de impostos mínimos - e por onde vagueia o dinheiro mais sujo do mundo. É um passo atrás na justiça fiscal. E enche de razão a batota fiscal de Alberto João.

4 O debate também demonstrou como foi demagógico e apenas para inglês ver o anúncio pré-autárquico de que o Túnel do Marão ia arrancar. Ia arrancar, ia, ia... mas o que o primeiro-ministro disse ontem foi que ainda andam a tentar convencer o sindicato financeiro (onde está o Banco Europeu de Investimentos) de que a nova solução de empreitada pode usar o financiamento da adjudicação anterior. Ou seja: nada ainda à vista.

5 O que se pode espremer ainda mais? Sobre o IVA da restauração, ficou quase certo que ainda não será em 2014 que ele desce. Aliás, Passos Coelho disse uma coisa brutal: que 95% das transações dos restaurantes fugiam aos impostos (antes da mudança dos sistema de faturação). Sobre os incêndios florestais, o primeiro-ministro deu aquela resposta de quem vive a milhões de quilómetros da realidade: quer que os proprietários (que abandonam o interior todos os dias vindo para o litoral ou emigrando) limpem as matas! É por estas e por outras que o problema não tem solução... Sobre os independentes poderem ser candidatos à Assembleia da República, o líder do PSD respondeu "não, nem pensar" com a autoridade de quem não deixa entrar mais ninguém. Para não tornar o país ingovernável, diz ele... Não fossem as pessoas votar noutras opções e a democracia poder gerir-se com outras possibilidades...

6 Ficaram por responder coisas importantes da atualidade - e que apetecia saber - como, por exemplo, a tal questão do fim das pensões dos viúvos e viúvas, o fecho das repartições de finanças por todo o país ou que mapa de alternativas tem o Governo face a novos chumbos do Tribunal Constitucional. Claro, mas isso é numa entrevista a sério. Por isso, para mim, a conclusão é clara sobre este morno serão: no próximo, já não me apanham.

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