Opinião

Os amadores de Madame Soula

Os amadores de Madame Soula

Citando a primeira página de terça-feira do "International Herald Tribune", o Voukefalas, um clube de futebol grego da cidade de Larissa - com o nome do cavalo de 'Alexandre o Grande' -, caiu na agonia financeira mas foi salvo por um patrocinador. Um mecenas muito peculiar. Nem mais nem menos que Madame Soula, a detentora dos bordéis mais importantes da cidade. Em contrapartida, o clube ostenta na camisola o nome da "Villa Erotica". Infelizmente, a associação de futebol local quer impedir este puro ato de empreendedorismo contemporâneo.

Pior: apesar da entrada de capital, o Voukefalas perdeu seis dos últimos 10 jogos. Há ainda uma polémica oferta de camisolas cor--de-rosa para os treinos feita por Madame Soula.

A vida do futebol amador, tal qual ela é, era o mote do programa N Amadores, que lancei em 2002 na antiga estação NTV. Depois o Amadores transformou-se em Liga dos Últimos na antiga RTPN. Vivemos inúmeras histórias como as do "Herald Tribune": maravilhosas excentricidades geradas pelo indefetível amor ao clube de futebol local. Mas também aqui se perde qualquer coisa por força deste sufoco chamado crise. O Campeonato de Amadores do Porto acabou este ano. Muitos campeonatos distritais irão pelo mesmo caminho. Os poucos meios desta gente sempre foram surpreendentes, mas agora não há sequer gente para dirigir ou jogar. Porque imaginação ia havendo.

Numa das primeiras reportagens fomos ao MGC, o conhecido Marechal Gomes da Costa, clube da zona nobre do Porto. Sem gente de boa vontade como Madame Soula, sobrava ao MGC usar as mais modernas ferramentas de gestão: o desenrascanço português. Dizia à época o presidente ao repórter no final de um treino: "Venha até aqui à sede do clube". E dirigiu-se ao carro. Abriu a mala e mostrou: "Aqui estão os equipamentos, aqui as bolas, aquela mala tem a tesouraria do clube. Isto é o MGC".

Este futebol era assim: campos pelados com balneários irrespiráveis/miseráveis, chuteiras rebentadas coladas à força de fita-cola, treinadores despedidos pelos presidentes através da reportagem televisiva, guarda-redes que depois de brutais goleadas abandonavam o futebol. Os gregos têm um clube patrocinado por uma agência funerária, coisa que a Liga dos Últimos já havia descoberto há meia dúzia de anos nos arredores de Vila Real. De qualquer forma o "Herald Tribune" não testemunhou em direto, como a Liga dos Últimos, o roubo do esquentador no campo do Vilanovense, em pleno centro de Gaia. Ao intervalo, quando se foi ver, já só estava lá a marca do (ex-)esquentador na parede. E no fim do jogo, água fria para todos.

Mas agora entramos numa escalada épica. Já há uns anos o Dragões Sandinenses teve metade do campo penhorado às Finanças por dívidas. Desde há muitos que os tesoureiros repetiam, aliás, em qualquer ponto do país, sempre a mesma frase no final dos jogos: os bilhetes não dão para pagar à Polícia. Dívidas ao Estado, ao Fisco...

É o fim? Os pequenos clubes mantêm os sorteios loucos de leitões, galinhas, porcos ou garrafas de vinho do Porto comprado em lojas "discount". Há também festivais de música ao desafio, motocrosse, corridas de carros de rolamentos ou mesmo campeonatos de malha. Tudo por uns poucos euros para o dia a dia.

Este Portugal do "domingo à tarde" nas mais remotas vilas e aldeias de Portugal é invisível. Muita gente gostava de o ver na televisão, até como registo de uma época, mas isto suscitou sempre dois pontos de vista: os que se divertiam com aquela malta e os que abominam este Portugal e se ofendem com ele na televisão. Por isso a Liga dos Últimos acabou há um ano. Entretanto, surpreendentemente, a RTP1 passou a recortá-la quase diariamente no "Brigada Anti-Crise", um programa de humor feito à base de diversos arquivos da estação pública. Há no entanto um equívoco: a Liga nunca foi uma paródia. É uma tragicomédia real, portuguesa, feita de "Voukefalas" por todo o país, com gente real e simples. Que nos deixou pérolas como as do sr. Joaquim, de Cavez, sobre "as banheiras do Estádio da Luz!", até ao célebre Capitão Moura, trolha da Soares da Costa em Bagdad dos Palácios de Saddam, que num célebre sábado à tarde, no Campo do Progresso, sentenciava: "Amadores: adoro! Mas há mafia... Máfia!". Este Portugal não volta mais e o que fica não é de rir. A Máfia, claro, está garantida.