Opinião

Os bombeiros morrem solteiros

Os bombeiros morrem solteiros

Nelson Mandela foi em certo sentido um bombeiro do seu tempo. Deu a vida pelo bem comum. Trago o seu nome a este texto porque a incompreensão que desfez parte da sua vida durante o 'apartheid' é um pouco a mesma que trucida os bombeiros nos incêndios todos os verões.

O relatório de Xavier Viegas, um especialista de renome internacional em fogos, provavelmente não pode tirar outra conclusão que não seja a de sublinhar a negligência dos operacionais no terreno e dos seus chefes nas centrais de comando. Faltam agora as ilações do ministro da Administração Interna, Miguel Macedo. Mas é por este prisma redutor de análise que se percebe por que continuam a morrer bombeiros. Discutir se os meios de combate são suficientes, e quanto tem de se gastar mais no ano seguinte, é a conversa superficial.

O problema real está noutra equação: a gigantesca dimensão do eucaliptal em Portugal, uma espécie exótica que se tornou na principal espécie arbórea do país, cujo único objetivo é abastecer as celuloses enquanto gera desertos de biodiversidade em seu redor. Esta monocultura egoísta e desadaptada ao país reflete-se numa agricultura menos produtiva porque não está rodeada de habitats variados, mas é também uma das causas do despovoamento de um interior que vive num "barril de pólvora". A espiral destruidora entende-se à crescente eutrofização de albufeiras - mais poluídas por cinzas e com água pior para consumo humano e agrícola. Até as cidades ficam irrespiráveis com incêndios incontroláveis se as condições climatéricas forem propensas a isso, como se viu este verão.

As corporações de bombeiros voluntários sabem que combater fogos em condições extremas é arriscadíssimo. E se vão para estes fogos de coração aberto, arriscam muito. É um ciclo vicioso: mais fogos representam mais meios, mais homens, gerando investimentos (para terceiros e para si próprios) de centenas de milhões de euros todos os anos - 3,2 mil milhões de dinheiro público em onze anos, segundo o JN. O ganho principal, no entanto, fica nas celuloses e madeireiros porque beneficiam do dinheiro público para apagar incêndios e transacionam matéria-prima de um país ardido e ao desbarato.

Contrariar esta espiral exige coragem. Os bombeiros podiam/deveriam dizer que vão deixar arder a floresta (protegendo apenas casas e pessoas) porque não é possível combater este Portugal sem outro "Ordenamento do Território". Sejamos lúcidos: não há multas que façam os proprietários pegar nas enxadas para limparem terrenos de alguma dimensão. E mandar limpar pode custar, todos os anos, mais de mil euros por hectare. Tudo isto porque, idealmente, a Secretaria de Estado das Florestas acha que pode continuar a estimular o crescimento do eucaliptal, numa lógica de criação de 'riqueza económica', à custa de uma economia que só beneficia quem produz papel. Um hectare de eucaliptos, cortado de 10 em 10 anos, vale pouquíssimas centenas de euros. Quando arde, ainda menos.

Repare-se: há um mês o Governo anunciou garbosamente que a Portucel iria fazer mais um investimento de 120 milhões de euros em Cacia. Toda a gente parece achar bem - é mais emprego, exportações e desenvolvimento. Eu também defendo mais emprego e exportações, mas não este tipo de desenvolvimento. Mas só um país cada vez mais terceiro-mundista permite o crescimento desordenado de uma matéria-prima que representa já mais de 25% de toda a floresta e, em menos de cem anos, vai inutilizar os solos onde cresceu.

Claro, nessa altura nem nós estamos cá, nem os ministros ou secretários de Estado das Florestas irão a votos. Mas por isso é que é preciso classificar de potenciais homicidas todas as pessoas que estimulam este Portugal sem pés nem cabeça. O problema é sempre o mesmo: é fácil ser hoje admirador de Mandela. Difícil era estar ao lado dele quando ele tinha razão, mas não dava jeito admiti-lo. A cobardia em Portugal é isto: os bombeiros morrem e a culpa é quase só deles. Não é. Algo tem de ser feito para travar esta espiral de empobrecimento natural. O território fica para além da nossa louca geração e destes governantes que, na prática, são apenas instrumentos governados à distância por líderes de negócios de uma economia devastadora.