Opinião

Mayday Portugal 2013 - a queda

Mayday Portugal 2013 - a queda

Depois do presidente da República anunciar ao país a sua salvação nacional, fui ver um episódio de "Mayday - desastres aéreos" para descontrair.

Desta vez era sobre a queda do avião Air France 447, Rio de Janeiro-Paris (junho de 2009), em que morreram 228 pessoas. Durante três anos ninguém conseguia explicar como foi possível um moderníssimo Airbus A-330 perder gradualmente altitude dos 10km até se despenhar no Oceano Atlântico. Mas caiu. Como?

1. O avião (tal como Portugal) aproximava-se de uma tempestade mas mesmo assim o comandante fez-se substituir aos comandos do aparelho por sobranceria. Aconteceu também com Cavaco: andou quase dois anos preocupado com os cortes nas (suas) pensões e a considerar o Governo como incapaz de atravessar tempestades. Depois, perante a ameaça de Gaspar se demitir (em abril) passa a apoiar o Governo e sai do cockpit como se estivesse tudo bem.

2. Quando o avião entra na massa de ar fria surge uma avaria no sensor de velocidade (tubo de Pitot). O piloto automático desliga-se (no nosso caso, a economia) e acende-se o sinal de emergência avisando que o avião vai perder altitude. Para resolver isto bastaria manter o aparelho na horizontal durante um minuto. No nosso caso era mais ou menos o mesmo: alguns cortes iniciais e não carregar demasiado nos impostos. Mas não.

3. O inexperiente piloto (Passos Coelho) vê o avião a perder altitude e toma a pior decisão - insiste em forçar o aparelho a subir, o que (diziam as instruções da Airbus) era errado. Exatamente como o país: expostos a indicadores de confiança errados, forçar ainda mais a subida (os cortes) para supostamente mais à frente recuperarmos, torna a missão das empresas (os motores) totalmente impossível.

4. O terceiro piloto da Air France (que havia ocupado o lugar do comandante) faz como Portas: hesita e não elimina a ação do copiloto nos primeiros dois minutos (Portas demora quase dois anos). Finalmente reage e avisa o colega que tem primeiro de descer para recuperar de seguida a estabilidade do aparelho. Só assim voltariam a subir. No entanto, o outro piloto (Passos) está tomado pelo pânico e, como vê o avião sempre a descer, puxa para si desesperadamente o 'leme'. Quer subir! E o avião não obedece... Repare-se: 228 pessoas a bordo (em Portugal, 10 milhões de pessoas) e cada piloto toma decisões que se anulam uma à outra, não falando entre si.

5. Quando a menos de dois minutos da queda no oceano o comandante (Cavaco) chega ao cockpit, fica baralhado com o que deve fazer (eleições? salvação nacional? novo Governo?). Finalmente dá uma ordem para descer o aparelho, na tentativa de o voltar a equilibrar e ganhar velocidade (a ideia do crescimento). Mas já é tarde - o avião cai de 'barriga' no oceano e morrem todos.

A vida não tem plano B nem simuladores. O presidente da República, na hora H, hesita e não lê os sinais da realidade, tão confundido ficou com as indicações erradas dos painéis de bordo (os mercados, os consultores, o medo) face à realidade. Acaba por ficar na mão de Passos. Entramos agora naquela fase em que parece impossível o avião não cair. Ficamos prestes a bater com a nossa vida nos duros cortes dos quatro mil milhões, depois de já termos sofrido há dois anos com uma aterragem de emergência de Sócrates por falta de combustível (dinheiro) que amputou a muitos pernas, braços ou cabeça para pensar.

Os novos ministros Moreira da Silva e Pires de Lima são bons nomes para esta remodelação do Governo, mas infelizmente Passos e Portas perderam tempo de mais. Há uma segunda 'bancarrota' (ainda que não oficial) à vista e um novo empréstimo da 'troika' com duríssimas condições, apresentadas certamente como a única saída para evitar catástrofe final - a saída do euro.

Devorado pela perda de confiança nestes pilotos, Portugal é um país aberto ao choque social, onde será difícil haver retoma e investimento. Os radares (os mercados) ainda nos mostram no ar mas isso não significa boa saúde do país (ou dos aviões). É apenas uma imagem virtual. Quando se cai, não resta nada. Deus nos ajude.

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