Opinião

Nós, os do Sul

Uma das coisas mais interessantes desta crise é a de verificarmos semelhanças entre os países do Sul da Europa, nomeadamente entre nós, Espanha, Itália e Grécia. A história do mundo ocidental que hoje conhecemos assenta em boa parte no que foi gerado nestes quatro países em termos de cultura, história, equilíbrio entre o homem e a natureza, e o grande prazer de viver com o Sol, os sabores gastronómicos riquíssimos, as praias, a paisagem. Se nos tivermos de virar para algum lado, parece claro que a nossa herança genética está aqui.

E este pode ser o nosso plano B. Talvez tenhamos de construir um destes dias a tal Europa do Sul com italianos, gregos e espanhóis a fazerem-nos companhia. Será mais pobre mas pode incluir uma moeda para os quatro, ter França como uma zona de passagem neutra, talvez incluir os países dos Balcãs como novos mercados. E nós, os do Mediterrâneo europeu, não metemos medo aos turcos, aos marroquinos, aos egípcios, etc.. Não somos a Europa xenófoba.

Estamos numa luta contra o tempo e no nosso sangue não corre a geometria decimal com que a troika nos obriga a vender tudo como se não houvesse no fundo da nossa memória esta questão: quase mil anos como nação independente. Sim, é essencial tornar o país menos dependente do financiamento externo e pôr as contas em ordem. Mas que países do Norte da Europa nos vão perdoar, mesmo depois de termos feito tudo, e não for suficiente? Não tenhamos ilusões: quem trata mal os gregos, vai-nos tratar mal a nós.

Demorará algumas gerações a recuperarmos a noção de país de influência mediterrânica que somos. País do pão e da terra, da pequena agricultura, de alguma indústria de ponta, mas também de gente ligada às artes e que mistura no seu sangue o Sol, as cores do céu e das flores, o peixe e o sal do mar, os muitos cheiros de vegetação única. É destas coisas que se formam as moléculas de gente diferente, abençoada pela diversidade de luz no céu nas quatro estações. Um país que precisa de ser mais capaz de vender turismo e gastronomia a par da cortiça de vanguarda, das madeiras inteligentes, das plantas aromáticas biológicas nascidas ao ar livre num país ainda com poucas chuvas ácidas, ou as frutas e legumes com sabor e sem proximidade a centrais nucleares ou a carvão.

Amanhã, dia de F. C. Porto-Barcelona, o futebol mágico do Sul. Dois clubes de cidades que pertencem a este quadro de cidades surpreendentes no contexto global. Barcelona, obviamente, muitíssimo mais poderosa, explosiva em criatividade, a brotar novas gerações de talento em todas as áreas. Uma grande vantagem: a posição geográfica, na intersecção com França, na proximidade face a Itália e na facilidade com que se chega ao resto da Europa. Tudo factores capazes de gerar sinapses de conhecimento mais facilmente. Por seu lado, o 'Porto' (o triângulo Aveiro-Braga-Vila Real) - o fim da linha da viagem quando se vem por estrada. Terra sem saída. Mas agora com auto-estradas da informação. Uma região com grande tenacidade e vocação para a economia global, e com uma malha de gente que voa sem parar para conhecer o Mundo, trazer ideias, fazer contactos internacionais. Uma cidade que tenta atrair talentos na música, nas artes, na investigação multimédia - tudo saberes essenciais para potenciar produções com mais valor acrescentado, seja em roupa, garrafas de vinho ou jogos de vídeo. "Small is beautiful", disse-se em tempos. "Less is more", diz-se agora. O Porto tem as duas coisas.

A rapaziada do Norte da Europa, nos seus ratings AAA, mais tarde ou mais cedo vai precisar do nosso Sol e sabores para que a sua confortável vida tenha cor. Nós, os do "Mediterrâneo", que criamos a filosofia e a mitologia grega, o Império Romano com o legado universal do seu Código Civil, nós os das rotas do Oriente de Marco Polo ou dos Descobrimentos de Quinhentos, não estamos condenados a morrer à fome ou a viver na depressão. Temos é de reaprender a produzir, comer e a gastar de forma diferente. E a ir pensando no plano B.

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