Opinião

O Comércio do Porto

A esmagadora maioria dos leitores desconhece os meandros da relação esquizofrénica entre a Câmara do Porto e os principais jornais da cidade. Jorge Fiel, subdirector deste jornal, dedicou no sábado um editorial a Manuel Teixeira, o chefe de gabinete de Rui Rio, um "Richelieu" dos nossos tempos. Na base da atitude da Câmara do Porto está uma sistemática perseguição à Imprensa através de uma cruzada moral. De um lado os jornais politicamente orientados, do outro os políticos insubmissos salvadores da democracia. Nada mais triste e falso. Recuemos então uns anos.

Em meados da década de oitenta. Manuel Teixeira era director d"O Comércio do Porto", Cavaco Silva havia chegado ao poder em 1985, governava em minoria, e a tensão política levou à convocação de eleições antecipadas. No Porto, o "JN" era considerado um jornal de esquerda, o "Primeiro de Janeiro" vivia em pré-agonia e "O Comércio do Porto" tinha um obstáculo à tomada de controlo político pelo PSD: dois chefes de redacção independentes, Jorge Fiel e Rogério Gomes. Subitamente, numa noite, os dois foram afastados e Teixeira mandou vir um tal de Santos Martins, chefe da delegação de Lisboa, assumir a chefia da redacção. O "golpe de estado" destroçou a redacção por completo. Estava lá e vi começar a morrer nesse momento "O Comércio do Porto".

Como se sabe, Cavaco ganhou as eleições de 1987 com maioria absoluta. Fixei para sempre o Jornal da Tarde da RTP1 do dia seguinte à vitória: Cavaco filmado no alpendre do jardim do Palácio de São Bento. Em cima da mesa um único jornal: "O Comércio do Porto".

O Governo decide depois privatizar os jornais. Qual o primeiro? "O Comércio do Porto". Ganho por Manuel Teixeira e uma "cooperativa de jornalistas" feita à medida da lei. E é também a Rádio Press (de Teixeira) que ganha o concurso lançado pelo Governo para a principal frequência de rádio do Porto. Era o tempo do cavaquismo absolutista e imaculado. E depois vendeu tudo a quem percebia do negócio...

E aqui chegamos a Manuel Teixeira, contratado para chefe de gabinete de Rui Rio e aos seus métodos de fragilização sistemática da Imprensa. Um exemplo: em 2003, era eu subdirector do Público, e recebo um telefonema da Presidência da República no qual um dos assessores de Jorge Sampaio pedia para visitar o jornal no Porto. Quando chegou, explicou: "Temos recebido na Presidência queixas de Rui Rio contra o vosso jornal e o Presidente gostaria de saber a razão". Como se imagina, vistos os casos que Belém recebia da Câmara do Porto, sobravam cinzas e o ridículo das denúncias.

Dez anos passados, quase nada mudou. Rio e Teixeira usam e abusam do legal "Direito de resposta" para esclarecer coisas que qualquer outra Câmara (ou ministério) resolve com um telefonema de cinco minutos. O objectivo final é levar os jornais à humilhação. Gerar o desgaste no leitor através da ocupação do espaço das notícias com desmentidos sistemáticos, muitas vezes de pormenor. Instigar as outras câmaras a fazerem o mesmo.

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Contra os média não é "Pacheco Pereira" quem quer. Infelizmente Rui Rio não sabe isso e Teixeira não lho diz. A Câmara do Porto, entretanto, é ela própria uma entidade de média. Edita revistas (por interpostas empresas) e publicita em ecrãs da cidade a informação que o presidente quer/gosta/controla. Criou uma micro "TV Porto" cujo interesse é dizer, sem "jornalistas", o que quer aos munícipes. Todas estas coisas pagas com dinheiro dos contribuintes para exclusiva propaganda do grande líder.

Se a cruzada é moral, deixo aqui manifestado o meu interesse em que surjam nos ecrãs luminosos da cidade, nas revistas (que abusivamente colocam no meu correio e no de milhares de habitantes da cidade) e na "TV Porto" a seguinte opinião como munícipe: "O presidente da Câmara Rui Rio usa dinheiro público para fazer propaganda a si mesmo neste meio de comunicação social". A bem da democracia. E só semanalmente, não precisa de ser todos os dias.

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