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O que querem os leitores?

O que querem os leitores?

Grandes órgãos de informação, alguns deles líderes, traficam notícias como se fossem droga. E milhões de leitores querem ver esse mundo degradado, a uma distância voyeur, lamentando repetidamente a decadência a que se chegou (e de que eles, obviamente, não fazem parte). Querem, e têm. Sangue? Escândalos? Tomem lá. Traições, ódios, coscuvilhices... Com fotos ou imagens, se possível. Lamentável e maravilhoso. Mas triste.

Provavelmente ninguém melhor do que Rupert Murdoch afinou esta fórmula à medida da sua conveniência milionária. E o encerramento do jornal britânico "News of the World" até poderia ser uma surpresa num homem pouco dado a arrependimentos. Mas trata-se apenas de salvar a outra fábrica de dinheiro do grupo, o tablóide "The Sun, fingindo compungimento e seriedade.

A coisa está a correr-lhe mal... e não só a ele. O primeiro-ministro inglês, David Cameron, havia posto como chefe de gabinete o até então director do "News of the World", Andy Coulson - jornal que naturalmente apoiou Cameron nas eleições. Espantoso: agora Cameron diz desconhecer o método "news of the world" de Coulson. Mas a verdade é que o primeiro-ministro britânico colocou um controlador de escutas e métodos de vigilância ilegais a tomar conta do gabinete mais importante do Reino Unido.

No meio disto, o ex-jornalista do "News of the World" que revelou o escândalo, Sean Hoare, foi encontrado morto em casa na segunda-feira. Mesmo que seja suicídio, foi certamente fruto da pressão que as suas revelações ao "The Guardian" causaram. Graças a ele sabemos que centenas de pessoas foram alvo de perseguições, espionagem e escutas ilegais (cá a ligeira diferença é que é a própria Polícia a fazê-las e alguém as passa para os jornais)...

Pedro Mexia escrevia no "Expresso" de sábado uma boa síntese do que é um 'mogul' mediático. "Se alguém está contra ele, Murdoch compra-o ou ataca-o. Os seus jornais são um instrumento habitual de vinganças pessoais. E quem trabalha com ele faz tudo o que ele quer, o seu grupo empresarial é um império mas também uma seita, composta de gente grata, leal e submissa. Murdoch fecha empresas, muda direcções, despede pessoas, desfaz carreiras. Faz isso porque pode, porque o deixam, porque comprou ou destruiu quem lhe podia fazer frente".

Fazer jornalismo é produzir influência na opinião pública. E é a opinião pública que manda na democracia através do voto ou das sondagens. Portanto, quem tem o poder de editar jornais ou televisões está a decidir todos os dias um pouco do destino do Mundo. A partir daí vem o resto. Basta ver a batalha de Barack Obama com os canais Fox (de Murdoch) a propósito da reforma do sistema de saúde norte-americano. Os interesses das seguradoras e do Partido Republicano, alinhados com a Fox, transformaram uma lei socialmente justa no ponto de mais baixa popularidade do mandato de Obama.

Há obviamente exemplos contrários - políticos corruptos ou socialmente inaptos capazes de pressionarem os patrões dos média até afastarem as pessoas de quem não gostam. Em ambos os casos, trata-se basicamente da mesma coisa - jornalistas e jornalismo entalados por interesses externos.

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Assim sendo: quem paga a conta do jornalismo independente e como mantê-lo digno? A liberdade de Imprensa está hoje fortemente dependente dos responsáveis de marketing (ou seja, dos interesses das grandes empresas), dos políticos que têm orçamentos publicitários ou influência neles, das agências de comunicação, e dos objectivos dos jornalistas em ascenderem a uma vida melhor, transformando simpatias em passaportes para assessoria política. Este cenário não parece ter um horizonte melhor à frente.

Por muitas voltas que se dê, há coisas no jornalismo que não mudam: verdade, justiça, interesse público. Por muito vertiginosa que seja a velocidade do progresso, estes princípios pairam no tempo e não deveriam mudar. O jornalismo nasceu assim, que morra ou sobreviva assim. Mas há uma pergunta que é uma espada de Dâmocles: o que querem afinal os leitores?

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