Opinião

O sentimento nacional

1O Orçamento do Estado reflete sempre o que somos: uma sociedade que não tem outra forma de se financiar que não seja à custa da riqueza produzida pelos cidadãos que ainda mexem e pelas empresas que ainda vendem. E, que, mesmo assim, tem de pedir mais dinheiro aos credores internacionais para tapar mais défice e dívida. Já o tipo de medidas escolhidas traz sempre consigo o mesmo tabu, cada vez mais frágil e falso: cobra-se aos que têm riqueza (de 600 euros para cima...) para proteger os que não têm. Parece simples, óbvio, justo, mas não é. Os que "têm" estão a cansar-se dos "outros". Os "outros" já não têm nada. Em geral, Portugal tem cada vez menos. A espiral não pode continuar.

Para fazer face ao galopante sentido de caos, o "grau" de exigência na austeridade e no conceito dos "mais fracos" necessitaria de uma mitigação, de um olhar humano dos credores. Isso não existiu até agora. Os credores são computadores com ordens de compra e venda em salas de mercados. Para serem mais do que isto têm de ser convocados por gente séria para os fazer entender que estão a aniquilar uma nação que, apesar de tudo, tem potencial para pagar o que deve. Só podem entender se lhes for pedido isso. Enquanto Portugal chegar e pagar a conta sem levar os cadáveres - para que os vejam -, continuam na rotina dos negócios sem culpa. Se mostrássemos qualquer coisa mais, talvez pudessem olhar para nós de outra forma. Talvez. (Valerá a pena acreditar que os aforradores ou gestores de fundos de investimento têm olhos e consciência?).

O descalabro do sentido humano não acontece apenas nos "mercados". Quando morrem mais de 300 pessoas no Mediterrâneo por quererem chegar ao bem-estar (à Europa), a pergunta que faço é: gostaria de ter uma família somali a viver na rua, à minha porta? Consigo ajudar a revogar a legislação que condena a pena de prisão quem ajudar refugiados em alto-mar? A maioria dos europeus só pretendem que não os aborreçam no seu conforto. Que morram. Lá está: que morram os somalis, os gregos, os portugueses, etc.. Que morram os que estorvam o progresso. Admito que só vivendo esta crise conseguimos, todos, dar um passo atrás, e dar o devido valor aos mais fracos, sejam eles quais forem.

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2. A verdade é que a utopia europeia iluminista rebentou no dia em que a Alemanha avisou a Grécia que estava por sua conta e risco. Pôs-se fim ao europeísmo solidário (se é que ele alguma vez existiu) e começaram-se a fazer contas. Quer dizer: os chefes de governo começaram a perceber que o fim do crédito barato nos mercados mundiais e o arrefecimento das economias resultava numa coisa simples: desemprego massivo. Por isso as dívidas entre países não são mutualizáveis da mesma forma que o desemprego dos vizinhos não nos diz respeito - a fome é um problema deles.

É por isso redundante discutir a justiça ou injustiça, uma a uma, das medidas do Orçamento do Estado de 2014. Hoje tira direitos a estes, amanhã àqueles e, no final, o Tribunal Constitucional não consegue impedir os cortes gerais e piora as coisas porque anda a transferi-los de uns para outros, ano após ano, acabando tudo por ir dar ao mesmo. Mas, apesar de tudo, nada fica igual porque se agudiza galopantemente a cisão entre funcionários públicos e privados, entre trabalhadores e pensionistas, entre pais, filhos e avós. E esse é o maior dano desta crise - a perda de confiança em tudo e todos.

Há uma alternativa, dizem os coveiros. A saída do euro. Portugal finalmente livre (?) dos credores, a imprimir dinheiro a eito, ainda que cada vez mais pobre. Eis como afirmar o sentimento nacional num país do fim do mundo pode erguer novos heróis de papel. No entanto, não nos enganemos: quando até em Portugal cresce a ideia dos benefícios do isolamento, percebemos melhor o que querem alemães, franceses, holandeses, etc.: não dividir nada com os outros e tratar de si próprios. O nacionalismo sempre foi a mãe de todas as guerras e a dívida o rastilho da revolta. 2014 é o ano decisivo para a Alemanha travar esta espiral ou ainda acordamos com a extrema--direita a mandar em toda a Europa. Uma absurda união do "cada um por si".

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