Opinião

Os Pritzker-Krugman

1 O dr. Mexia, da EDP, é um judoca mediático de alto recorte. Se a UNESCO tem dúvidas sobre o impacto da barragem na paisagem do Alto Douro Vinhateiro, Património Mundial da Humanidade, a solução passa por fazer das fraquezas, forças: em vez de um mostrengo de betão, a EDP passa a fazer obras de arte nas barragens. Até dá para sonhar: venha a Portugal ver o roteiro das barragens assinadas pelos "nóbeis" da arquitetura (os Pritzkers)! Arte patrocinada pela empresa que controla o essencial do consumo elétrico nacional e cujo preço do tarifário nos faz interrogar se, com mais estes inquestionáveis e milionários Pritzkers a caminho, não estamos já a ser avisados que o preço por barragem subirá e, a reboque, o preço a cobrar pela energia. Coisa que na sede da empresa, na Marquês do Pombal, talvez não seja muito relevante. O importante é boa imprensa. Os Pritzkers! Inquestionável...

2. Os autarcas do Douro (e os outros), entretanto, ficarão na história como os senhores que recebem a moeda à porta e veem os convidados entrar para o banquete. Os Pritzkers! Que bom que é ter, por agora, algumas pessoas a trabalhar nas pedras das margens dos rios. Quantas sandes e noites em pensões locais, a isto chamado desenvolvimento... Claro que, depois de prontas, tudo funciona remotamente, sem ninguém, desde a mais longínqua barragem até ao centro de operações, algures, três pessoas por turno, o interior - que longe, empregos?, pois sim... Ah, e o desastre natural na qualidade da água nas albufeiras não é agora para aqui chamado. O mito do turismo de qualidade em barragens... É hora de festejos: os PRITZKERS! E entretanto, o Douro fica sem os rios Sabor, o Tua, o comboio do Tua e tem em risco o Património Mundial.

3. Desculpem a interrupção. Educadamente insisto: precisamos de novas barragens? Os especialistas que se opõem têm dito repetidamente o mesmo: era mais barato, e com menor impacto para o ambiente, ampliar a produção das que já existem. Joanaz de Melo, professor da Universidade Nova de Lisboa, voltou a sublinhá-lo no "Expresso" de sábado: "O Programa Nacional de Barragens é uma fraude - um favorecimento das grandes empresas de eletricidade, da construção e da banca à custa dos consumidores/contribuintes e do tecido económico". Em termos concretos: "As nove grandes barragens propostas, com uma potência de 2,5 GW e uma produtibilidade 1700 GWh/ano seriam usadas apenas 680/h ano (8% do tempo). Isto representa um acréscimo de 48% da potência hidroelétrica instalada (parece muito), mas apenas 19% da produção hídrica, 3% da procura de eletricidade e uns míseros 0,5% da energia primária do país". Matar nove rios é igual a gastarmos individualmente menos 3% energia.

4. Nunca me surpreendeu que os ambientalistas ficassem sós no tema. Se os partidos do sistema (PSD, PS, CDS) têm tios interessados na coisa, a coisa anda. Mas é preciso acrescentar à lista dos coniventes o PCP, cujo forte núcleo da EDP leva o partido a fazer a despesa através da deputada dos Verdes sem que o partido se meta no assunto. E assim se gera uma conta energética para o país, insustentável por muitos anos, que até a troika e o Governo já notaram, mas a que vai ser difícil fazer frente.

5. O país paga os Pritzkers... e o Krugman. Quem não gosta de ler o Prémio Nobel de Economia a anunciar, do outro lado do Atlântico, semanalmente, que se a Europa continuar por esta via de austeridade, o euro acaba? Nós, os que sofremos a austeridade e não gostamos dela, estamos com o Krugman... Mas há um problema: para quem fala o Krugman? Com a sua vinda a Portugal desfiz as minhas dúvidas: o Nobel fala para os europeus (alemães) e não para europeus (portugueses). A receita de 'menos austeridade' não se aplica cá. Ele até sugeriu um corte nos salários de 20% e achou o país difícil de explicar. Que terramoto! Peço então um favor a todos os que gostam de ler o Krugman: não tirem conclusões em Português. Leiam--no apenas em Alemão.

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