Opinião

Passos Coelho e o país do futuro

Passos Coelho e o país do futuro

Antes de mais: este Governo herdou uma situação calamitosa no défice e na dívida. Foi deste ponto de partida que arrancou Passos Coelho e isso criou enormes dificuldades para muitas decisões. Mas governar o país obrigou a decidir coisas importantes sem o manual de instruções da troika. Havia opções a tomar. E são essas decisões, ideológicas, que colocam em causa o futuro do país porque as contas certas por si só não fazem crescer a economia.

1. Por exemplo, a mais histórica de todas: deixar morrer o BES? Ricardo Salgado e a família Espírito Santo deviam obviamente perder o controlo de capital do banco por todos os crimes cometidos - além das sanções judiciais. Mas o país inevitavelmente corria um enorme risco se o segundo maior banco do sistema acabasse de um momento para o outro. Não aconteceu em nenhum país da Europa após a crise de 2008. Qualquer pessoa com dois dedos de testa antecipava isso.

O problema era dinheiro? Não era. Havia o dinheiro da troika, como se viu depois. Qual o montante da ajuda à banca em Portugal? Cinco mil milhões, sobretudo ao Millennium e ao BPI, dinheiro esse que está quase pago (e com ganhos para o Estado devido aos juros altos cobrados). Agora repare-se: em Espanha o apoio à banca foi de 200 mil milhões de euros, 40 vezes superior ao português. Está quase pago e com lucro do Estado espanhol.

É deste provincianismo de Passos e Maria Luís Albuquerque de que estamos a falar no final de julho de 2014 quando o BES ameaçava ruir. Já sem Ricardo Salgado à frente, e com Vítor Bento e o Banco de Portugal a tentarem evitar um colapso estrondoso, o tal primeiro-ministro que supostamente não governa para eleições disse, a partir das suas férias no Algarve, que não haveria "dinheiro dos contribuintes" para o BES (depois de ter dito que o BES estava seguríssimo...). Razões de Estado ou populistas?

Ao fechar o banco, o Estado português ofereceu a Angola 3,3 mil milhões de euros de mão beijada porque o Governo angolano tinha-se comprometido a garantir parte do dinheiro desaparecido no BES Angola (Ricardo Salgado perdeu o rasto a 5,7 mil milhões de euros...). Mas falido o BES, adeus 3,3 mil milhões de euros garantidos... O presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, deve-se ter rebolado a rir da infantil decisão portuguesa.

Isto, claro, já para não se falar, do embuste de "confiança" que foi um aumento de capital de mil milhões de euros exigido pelo Banco de Portugal ao BES, certificado pela KPMG (que verificava as contas desde 2002 e, afinal, as contas do BES escondiam a falência desde, pelo menos, 2013. Junte-se aos 3,3 mil milhões de Angola os mil milhões da PT, os dois mil milhões de obrigacionistas e tesouraria de grandes empresas e a conta é gigantesca.

Se há coisa que a comissão de inquérito ao caso BES mostra é um Governo totalmente incapaz de estar à altura da gravidade do momento histórico que estava a viver, por mais erros que o Banco de Portugal tenha acumulado.

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2. Assim chegamos à destruição da PT onde já há dois números a correr: despedimentos de três mil ou de oito mil funcionários. Num primeiro momento o Governo dirá que não, etc... Depois tudo acontece porque é o "mercado". Tal como na venda dos aeroportos que, num só ano, levaram à subida das taxas aeroportuárias em Lisboa de 14% e 6% no Porto. Mas alguém tinha dúvidas que a entrega em monopólio da ANA não faria isto? Se não há alternativa, o monopolista faz dos preços o que quer... Os CTT vão pelo mesmo caminho. E depois será a TAP, a Águas de Portugal e finalmente a Caixa Geral de Depósitos.

A histórica destruição da PT a que estamos a assistir é igual ao momento em que, há 50 anos, o Portugal de Salazar não conseguiu criar uma forte empresa para produzir automóveis e depois nunca fomos capazes de o fazer. As telecomunicações são a base do futuro e uma infraestrutura base de produtividade. Perder a PT é uma tragédia. Os erros começaram lá dentro, claro, mas tornaram-se irreversíveis com a queda do BES, uma vez mais.

A pergunta que coloco aqui desde há muitos meses é sempre a mesma: como reconstruir este país depois das decisões "estratégicas" deste Governo?

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