Opinião

Passos pequenos na Educação

Passos pequenos na Educação

O essencial não é a decisão do Tribunal Constitucional ou a reação de Passos Coelho. Os juízes interpretam a Constituição ao sabor do (seu) tempo. Em resposta, o primeiro-ministro declara guerra ao país fazendo reféns os mais pobres através, por exemplo, da Saúde e da Educação. Mas importante é reter que nem todas as ameaças são para levar a sério. Não nos vão pôr fora do euro de repente. Não podem. Os Tratados não deixam. E não estou a ver uma revolução na rua para sairmos da União Europeia - isso só interessa à esquerda radical que não sabe o que fazer ou aos académicos que não fazem ideia do que é exportar com valor, integrados no "made in EU", transacionando em euros. A Albânia deve ter ótimos produtos... Já comprou algum? Pelos vistos os académicos que nos veem com o escudo acham que, nessa altura, os nossos produtos serão mais apelativos... Pensemos antes que havemos de conseguir sair desta exaustão psicológica. Desta falta de confiança. Para isso é preciso o essencial.

E o essencial é a Educação. É o Portugal de tantos milhões de pessoas desqualificadas e desempregadas, hoje. Mas, ainda mais importante: o Portugal que teremos daqui a 20 anos com estes jovens já tão estupidamente mal sucedidos ou fora da escola.

Os números que o JN trouxe na edição de ontem são o nosso espelho. Claríssimo. O Norte mais agarrado aos livros, como passaporte para fugir da pobreza. Um Sul a descolar absurdamente, sem explicação. E, em geral, um número nacional e cruel: 23% da nossa população, atualmente entre os 18 e os 24 anos, completou apenas o 9.º ano, o segundo pior nível da União Europeia (apenas à frente da Espanha). É certo que em 2001 eram 44% - e isso explica por que é que hoje temos tanta população acima dos 40 anos com dificuldades de reaprendizagem e/ou sem qualificações para voltar ao mercado de trabalho. Mas 23% é brutal.

A queda do investimento na escola, nos últimos dois anos, não explica esta tendência ou o abandono escolar precoce. É algo mais profundo. Repare-se no "caso" do Porto e Matosinhos e pasme-se: como é possível que cidades com escolas em bom estado, transportes públicos e facilidade de acessos, obtenham os piores resultados de todo o distrito, atrás de Baião, Lousada ou Marco de Canaveses? É grave e profundíssimo. Olho para estes números e lembro-me de imediato da Região Porto como a cidade campeã do rendimento mínimo, da tuberculose, dos níveis assustadores da pequena criminalidade. O falhanço na Educação faz parte destes sintomas.

É neste sentido que é preciso levar muito mais longe a análise sociológica sobre os bairros problemáticos das cidades, onde não basta pintar casas, demoli-las ou pôr Polícia por perto. Como se desfaz este tumor? Por muito que, por exemplo, a Câmara do Porto se tenha empenhado, e bem, em levar mecenato e bons exemplos a escolas difíceis, falha depois muita coisa. Em casos tão endémicos de pobreza não basta esperar pela "responsabilidade das pessoas" ou pela sua "autodeterminação" para uma vida melhor. É mais difícil que isto. É preciso arrancá-las do torpor da subsidiodependência e da pobreza resignada.

Precisamos de um país mais forte para tempos de enorme concorrência. O conhecimento é quase tudo. A pobreza só se combate com mais competências. A ideia do Ministério de Nuno Crato, de alargar as possibilidades de formação profissional a partir do 9.º ano, é uma boa medida. Dá uma oportunidade de aprendizagem a quem não quer ou não absorve palavras e números mas tem vocações mais práticas.

Por fim, o alerta mais grave dos números: quando vemos que a Região Norte, a mais pobre do país, produz os melhores resultados nacionais do sucesso escolar, torna-se evidente que os cortes na Educação ameaçam destruir o que lentamente se construiu até aqui. Porque territórios com maior poder de compra são capazes de manter os seus filhos na escola. Mas os mais pobres, onde o apoio escolar é essencial, ficarão de fora. E isso passar-se-á principalmente no Norte. É um crime assimétrico contra os que mais estudam. Exatamente aqueles de quem o nosso futuro depende.

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