Opinião

Queremos salvar a TAP? Para quê?

Queremos salvar a TAP? Para quê?

A esmagadora maioria dos portugueses que não usa regularmente a TAP está farto dela. Consome TAP pelas notícias e acha que é demais: ou são greves, ou atrasos, ou prejuízos, ou mais greves. Privatizar a TAP é resolver um problema. Vendê-la, um favor. Diz o Governo: o preço não interessa. Pode ser zero. E o país ainda agradece. Porque é preciso estancar estas perdas. Só que há um grande problema nesta tese simples: e depois?

Comecemos pela insuportável conflitualidade laboral da TAP. Será que ela acontece porque não há um dono e quem paga sempre são os contribuintes? Era assim quando a companhia recebia milhões sem fundo do Estado. Mas hoje as regras não são estas. O Estado está proibido, pelas leis da concorrência europeia, de colocar dinheiro na companhia aérea. Aliás, não pode haver notícia mais evidente disto mesmo do que a decisão de se vender quatro aviões, com urgência, para pagar despesas correntes - salários, combustível e fornecedores.

Quando chegamos a este ponto de rutura parece que podemos concordar com o Governo de que mais vale vendê-la do que deixar a empresa cair pura e simplesmente na falência. E, no entanto, para agravar a situação... mais uma greve de quatro dias (27, 28 , 29 e 30 de dezembro) decretada por todos (12) os sindicatos da TAP. Mais um prego no caixão da empresa "nacional", decretada para um período de Natal, crítico para milhares de emigrantes e famílias em viagem. Num período de tantos voos cheios, cada dia deverá valer perto de 10 milhões de euros de prejuízos e ditará resultados negros uma vez mais no final do ano.

Este é o problema central. Muitas pessoas acreditam na absoluta necessidade estratégica da TAP se manter com controlo português e, portanto, são contra a privatização. Mas não conseguem livrar-se da dúvida sobre se vale a pena apoiar estes trabalhadores da TAP que, por muita razão que tivessem no passado, transformaram-na num problema laboral insolúvel. Infelizmente, agora que a greve poderia fazer sentido para salvar um dos poucos nomes portugueses que restam no Mundo, a credibilidade dos milhares de trabalhadores da TAP vale zero na opinião pública. Quem virá para a rua manifestar-se a favor desta greve?

O Governo, com infinita capacidade de passar a mensagem que quer na praça pública, vai obviamente usar esta greve para acabar de vez com qualquer resistência à privatização. Ainda por cima, ela está nas mãos de Pires de Lima, ministro da Economia, que acredita sinceramente na necessidade de vender a empresa - provavelmente ao contrário da "portugalidade" programática de Paulo Portas que sempre a viu como um dos principais ativos nacionais.

A TAP é a principal exportadora de serviços nacional. É a principal reguladora dos preços no mercado português porque a maioria das companhias concorrentes voam dos seus países de origem para Portugal - mas só a TAP compete com quase todas elas, destino a destino, gerando rotas com concorrência. É a TAP quem serve alguns destinos da diáspora ou de África que nenhuma privatização garantirá a longo prazo. Além disso, é uma das principais ferramentas dos empresários para saírem de manhã e voltarem à noite nas suas viagens.

O absoluto sucesso do crescimento do turismo nacional, um dos maiores do Mundo em 2013 e 2014, assenta também na oferta de uma companhia aérea de qualidade porque nem todos os segmentos são low-cost. Além disso, as viagens de negócios para Portugal são igualmente decisivas para a atração do capital estrangeiro, exatamente aquilo de que este Governo mais implora. E é neste momento que vamos vender a TAP?

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Voltamos ao princípio: as regras comunitárias não deixam apoiar a TAP... Diretamente não, é verdade. Mas é sempre possível criar umas "taxas" para a manter viva. Só que, lá está, quais são os portugueses que querem pagar bilhetes de avião com umas "taxas extra"? Viajam nas low-cost, que é mais barato... Na hora de comprar bilhete, a nacionalidade não leva a melhor sobre o preço. Ainda por cima "eles só sabem fazer greves".

Perante esta resignação empobrecida, sem ânimo nem classe média, nem elites, vender ao estrangeiro é a solução para tudo. A nossa geração prepara-se ficar na história de Portugal por razões que nos envergonham.

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