Opinião

Rui Rio - sim/não/talvez

Rui Rio - sim/não/talvez

Faz quase 12 anos que entrevistei Rui Rio na extinta NTV, no dia após a tomada de posse. Tratava-se de um político diferente, uma pessoa estimável, cujo processo de limpeza das falsas filiações do PSD-Porto demonstrava um anticaciquismo moderno. A simplicidade das suas propostas, aliadas ao descontentamento com o Governo Guterres, deu-lhe uma vitória inesperada - exatamente como aconteceu agora com Rui Moreira. Mas nada naqueles meses de campanha indiciava uma tendência tão assente na teimosia e na rutura com tanta gente boa da cidade. Que foi surpreendente.

O primeiro grande abanão na cidade ocorre em fevereiro de 2002 quando a Câmara embarga as obras em curso do Plano de Pormenor das Antas onde estava em construção o Estádio do Dragão para o Euro 2004. Rui Rio sublinhava que vinha para quebrar com os interesses instalados. Coisa que os jornais da cidade vinham denunciando através, por exemplo, do caso do Shopping do Bom Sucesso (no mandato de Fernando Gomes) onde a construtora Soares da Costa parecia ter pretensões para além do que estipulava o Plano Diretor Municipal (PDM) num importante quarteirão da cidade. Outro caso - o dos negócios dos terrenos do Parque da Cidade por troca com os quarteirões das Antas (no mandato de Nuno Cardoso) - revelava que a necessidade de separar águas no Porto entre futebol, Câmara e empreiteiros era de uma urgência cívica. Rio tinha razão sobre os prejuízos públicos dessa aliança como se viu depois quando os tribunais obrigaram os cofres públicos a pagar uma indemnização de milhões aos proprietários prejudicados.

Casos como estes marcaram a linha de força de Rio. Enfrentar, naquela altura, o poder do presidente do F. C. Porto e os Super Dragões, exigiu uma coragem que cativou muita gente da cidade, e sobretudo de Lisboa. Nasceu um político "nacional".

A partir daí começou um primeiro mandato contra o mundo. O ostracismo da Câmara face à Universidade ou a tantas outras instituições da cidade, incluindo a Associação Comercial do Porto, era de bradar aos céus. A guerra com os jornais do Porto nasce também por essa altura. Alguns diários da cidade tinham começado a contestar a limpeza "étnica" dos arrumadores na cidade, expulsos para as cidades vizinhas por medo da repressão policial. O programa "Porto Feliz" para toxicodependentes era, objetivamente, uma espécie de reabilitação-prisão sem o contexto de uma cidade capaz de lutar contra a pobreza através da liderança da Câmara. Obviamente a guerra aos arrumadores terminou sem grandes resultados mas a Câmara invocou a falta de apoio do Estado para sair daquele labirinto.

Quer o JN quer o "Público" denunciaram esta estratégia algo xenófoba do presidente da Câmara durante meses. Como resposta ele fez tudo para abalar os jornais por dentro, queixou-se ao presidente da República e por fim tentou condicioná--los económica e informativamente. Escolheu então o "O Primeiro de Janeiro" para cumprir a lei dos editais e com isso não mandar o dinheiro e as novidades da Câmara para os "jornais inimigos". Os leitores do Porto, no entanto, não "votaram" nos jornais de Rio.

Desde o princípio existia, entretanto, uma luta contra a subsidiodependência da Cultura (sejamos francos: uma certa esquerda), tanto mais feroz quanto menos o autarca compreendia que estava a condenar uma parte da geração capaz de dar futuro e identidade à cidade. E assim fomos andando, de guerra em guerra - os grafitos não autorizados, os cartazes do PCP, o projeto da Escola da Fontinha. A recente intolerância face à Seiva Trupe é fruto de um autoritarismo igual ao da varanda da Câmara, fechada durante 12 anos. Já a "visão de futuro" que representou gastar (pelo menos) 10 milhões de euros de "reabilitação urbana" para criar a pista de automóveis da Boavista, alguns deles pagos pela "Metro", bom, isso foi investimento social rumo ao crescimento económico... Por fim, o apoio empenhadíssimo de Rio a Rui Moreira serviu para concretizar uma vitória gloriosa: a vingança contra Menezes.

Aqui chegados, há que reconhecer que os que lutaram contra Rui Rio perderam a batalha. Mas só adiante se verá se Rui Rio ganhou a sua guerra - chegar ao Poder, a Lisboa - e se, caso consiga, sai de lá como um democrata. As contas far-se-ão no fim.

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