Opinião

Só boas notícias

Desculpem o título. Parece louco mas talvez não seja. Comecemos pelo princípio: a notícia mais importante de ontem não foi a assinatura do acordo de concertação social. Há uma melhor. E qual é? A notícia de que Portugal conseguiu garantir mais 2500 milhões de euros emprestados a uma taxa de juro mais baixa que a de algumas semanas atrás. Apesar do corte do rating pela Standard and Poor's no fim-de-semana, esta ida ao mercado foi mais barata do que se poderia temer. Não é teoria. Em concreto, pagamos menos. Óptimo.

2. Inversamente, o custo das obrigações a 10 anos está mais caro, como muitas rádios sublinharam ontem. Mas isso é teoria porque não andamos a comprar dinheiro a 18% - é para isso que está cá a troika e nos empresta a 4,5%. Vamos com calma! Há uma persistente linha de acção e imagem que Vítor Gaspar está a conseguir fazer vingar: Portugal é um país que quer cumprir os acordos e pagar aos credores. Vamos conseguir? Temos poucas hipóteses de pagar uma dívida de 125% do PIB no final do empréstimo da troika. Mas talvez daqui a uns meses se perceba que Portugal "merece" uma ajuda. Um corte de dívida. Novos cortes na taxa de juro do empréstimo. Estamos a jogar a um "faz-de-conta" que somos bons rapazes. E somos. Às vezes perdemos a cabeça e gastamos a mais. Mas, vistos de fora, há grandes razões para isso: tivemos a ditadura e estava tudo por fazer. Somos pequenos e faltam-nos economias de escala. Estamos longe do centro. Somos "periféricos". A palavra diz tudo. Da mesma maneira que olhamos para os Açores e percebemos que eles sejam mais pobres, talvez do centro da Europa olhem para nós assim. País bonito. Gente boa. E longe. Coitados. E zás, levem lá um desconto e paguem o resto. Em nome do euro. Pela Europa. Boas praias, bom peixe...

3. Por isso o acordo de concertação social é tão importante. Pelo que ele significa para o exterior. Será equilibrado? Vai ser bem aplicado? Na minha opinião, a questão mais importante de todas ficou por resolver: a do despedimento individual. A cláusula geral de despedimento por "inadaptação" é tão vaga que tudo vai depender da interpretação dada pelos tribunais em caso de conflito. Mas Roma e Pavia não se fizeram num dia. No que sobra, estamos a falar de flexibilidades relativas - banco de horas, algum teórico trabalho ao sábado (haverá mais trabalho para fazer?) e menos feriados (os 25 dias de férias eram uma utopia). Ora, a economia portuguesa precisa de 'mais' horas de trabalho? Não, precisa de 'melhores' horas de trabalho. Como tal, e obviamente, este acordo não ajuda a diminuir o desemprego. Agrava-o. Mas não podia ser de outra maneira neste momento com tantas PME em estado crítico. Por isso decisivo-decisivo é: as empresas sabem para onde avançar com esta flexibilidade? Os empresários são suficientemente qualificados para se globalizarem? Os trabalhadores estão com a cabeça no trabalho? Essas são as questões essenciais.

4.Ainda assim, visto de fora, o país parece endireitar-se. E entretanto a Grécia e os credores deram ontem um sinal de que poderão evitar uma ruptura entre o euro e Atenas - veremos. Enquanto a Grécia estiver no papel do patinho feio, não estamos lá nós. E vamos ganhando tempo. Mesmo que a Grécia tenha de sair, é essencial que a percepção sobre a economia portuguesa seja a de quem está a lutar com todas as forças para inverter o rumo. Claro, para isso precisamos de exportar mais, ter menos défice, contrair menos dívida e não ter uma espiral de contestação social. Quanto a este último ponto, a CGTP e o PCP tentarão em desespero acentuar o ritmo de bombardeamento atómico - greves nos portos, transportes e serviços públicos. Falta conseguirem o apoio dos camionistas. Portos, aviões e camionistas decidem em boa parte o futuro de Portugal nos próximos tempos. Têm o mesmo impacto que o rating. CGTP e Standard and Poor's valem o mesmo no futuro do país. Têm óptimas razões, muito válidas. Mas condenam-nos à falência com as suas extraordinárias razões. Só um grande povo resiste a um ataque simultâneo deste tipo. Ainda assim: não nos subestimem.

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