Opinião

Sophia, Carlos do Carmo - quase tudo

Sophia, Carlos do Carmo - quase tudo

1. Talvez interesse ao meu amigo leitor do nosso JN saber que me deu, Deus, a maravilhosa oportunidade de visitar muitas cidades do Mundo e em todas elas procurar os seus museus e assim descobrir a alma das pessoas e dos espaços. Nenhum me marcou tanto como o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. E lá encontrei um sonho. Porque vi as Palavras nas paredes, grandes, gigantescas, belas, artísticas, ou pequenas e coloridas, em formato de poemas, em formato de quebra-luz, em todas as formas e feitios. Quadros para ler com as melhores palavras do meu português querido, do nosso português brasileiro, africano de qualquer outra derivação.

Numa das instalações artísticas do Museu, um maravilhoso céu de palavras e vozes, as melhores vozes, liam, em quase escuridão, poemas e frases-monumentos. Algumas estão dentro de nós, na memória, e já nem sabemos que estão lá. De Camões a Vinicius ou Mia Couto, Pessoa e seus heterónimos e outros tantos, é absolutamente extraordinário esse momento em que sentimos as palavras a correrem-nos pelas veias, não porque entram pelos olhos e nos provocam um arrebatamento do coração, mas sim porque entram pelos ouvidos e vão direitas ao sangue - e ele ferve de emoção.

No Museu da Língua, as Palavras são música porque as vozes que as interpretam nos esmagam de beleza. E de todas as vozes da língua portuguesa, nenhuma voz me arrebata mais do que ouvir Gal Costa com aquele tom de primavera com que sempre canta ou diz - Gal lendo português seja-ele-qual-for. Não me lembro já se foi ela quem leu este poema de Sophia Mello Breyner Andresen que me pôs em paz com este dilema: como gostar mais de ouvi-los a eles, adotivos, que a nós, originais portugueses da língua de Portugal?

"Gosto de ouvir o português do Brasil / Onde as palavras recuperam a sua substância total / Concretas como frutos nítidas como pássaros / Gosto de ouvir a palavra com as suas sílabas todas / Sem perder sequer um quinto de vogal / - Quando Helena Lanari dizia "o coqueiro" / O coqueiro ficava muito mais vegetal".

É esta maravilhosa diferença entre nós e eles que nenhum acordo nunca unificará.

2. O "Grammy" para Carlos do Carmo é comovente porque traz o reconhecimento em vida a uma voz que canta com a dimensão de uma sonora orquestra inteira no melhor claustro. E há músicas que nos ficam para sempre, e, com ele, a atmosfera de Lisboa, as pequenas ruas junto ao Castelo, aquela luz no Tejo.

Não sou do fado, mas há músicas de Carlos do Carmo que não soam a fado, são coisas do outro mundo. "Era a tarde mais longa de todas as tardes que me aconteciam" é o arranque de um poema e de uma voz que estão para lá do momento em que se escuta. É um pacto entre música e palavras que estão para lá da dor ou da alegria do momento. "Meu amor meu amor minha estrela da tarde / Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde" - é uma frase que me surge do nada tantas vezes e foi ele que a inscreveu em mim.

"Se ao dizer adeus à vida / as aves todas do céu / me dessem na despedida / o teu olhar derradeiro / esse olhar que era só teu / amor que foste o primeiro / Que perfeito coração morreria no meu peito / meu amor na tua mão / nessa mão onde perfeito / bateu o meu coração". E as guitarras. É nosso.

3. Há um livro editado em 2007 que se vai tornar eterno. Chama-se "As Benevolentes", é de Jonathan Littell e conta, na voz do narrador, como um pacato professor de Direito Constitucional alemão passa a oficial do exército nazi. Reconheço que as 884 páginas têm de ser digeridas com tempo, tal o peso arrasador da máquina de guerra versus a perda de humanidade de um grupo de homens que cumprem ordens sem tempo para se interrogarem. Ainda não cheguei à página 200 e começo a perceber porque dizia o "Le Nouvel Observateur" tratar-se de "um novo "Guerra e Paz"". Ainda "estou" na Ucrânia, a caminho da Rússia, e até agora limitei-me a assistir por dentro ao extermínio de judeus, conspiradores, loucos comunistas ou de qualquer outra coisa considerada "perturbadora". Tiros na cabeça em homens, mulheres e crianças, tiros tantas vezes mal dados, obrigando a mais tiros já nas valas comuns para onde os corpos caíam. Que não se calavam... E vêm aí os campos de concentração.

Precisamos de palavras de luz para lutar contra a nossa escuridão.