Opinião

Talvez agora o "Porto Grande"

Talvez agora o "Porto Grande"

1. Eu ainda sou do tempo em que Luís Filipe Menezes e Rui Moreira eram amigos. E uma amizade lógica, como já aqui escrevi, que depois das eleições tem de ser reatada. Rui Moreira é mais empreendedor e com mais mundo do que a colagem a Rui Rio faz parecer. Aliás, o presidente da Associação Comercial do Porto tem feito o possível e impossível para lançar ideias e tentar mostrar o quanto se poderia ter feito apesar da dívida. Porque o que está em causa nesta herança 'Rui Rio' são 12 anos em que os primeiros oito não existiram e agora percebe-se o atraso da cidade para a crise (desemprego) e oportunidades (turismo) que surgiram. A revolução da cidade é pós-Ryanair, não é pós-Rui Rio. Os 15 milhões guardados nos cofres da Câmara do Porto são simbólicos - até porque permanecem 100 milhões em dívidas.

Mas o essencial desta eleição é a porta que se abre para o futuro. O "Porto Grande" é uma cidade onde as avenidas, jardins e pontes de Gaia (não) seguem para o Porto através das pontes e 'chegam' a Matosinhos esbarrando com um municipalismo arquitetonicamente bacoco dos anos de Narciso. E a questão é esta: seja Menezes, Moreira ou Pizarro (pela ordem das sondagens) a tomar conta do Porto, há uma esperança nova e uma obrigação de se entenderem para a mudança do Porto e para além dele. Talvez mesmo um dia um entendimento para a fusão que gere melhores economias de escala e atenção aos setores marginalizados como as freguesias rurais, essências à qualidade dos miolos densos. Um projeto maior do que o protagonismo individual dos presidentes.

2. Repare-se: o turismo explodiu e a cidade anda a organizar-se, impelida pela procura, mas sem um plano coerente, perdendo uma oportunidade imensa porque o grau de satisfação da visita destes milhões de turistas está essencialmente assente no que o Porto sempre foi - as caves, o rio, a arquitetura e a gastronomia. Falta claramente o 'software' para tornar a experiência de cá estar numa coisa plena - a segurança, o lazer, a iluminação, a limpeza e um Porto histórico com um programa que oriente quem anda por cá.

A 'intensa' oferta de animação deste último ano não esconde o fracasso cultural. Há muita música mas ficamos por aqui: há pouca dança, as companhias de teatro da cidade vivem no limbo da sobrevivência e a Universidade ainda não conseguiu casar com a Câmara o suficiente para soltar na rua conhecimento e diferença, talento e imaginação.

O problema dos idosos e a pobreza de rua não são exclusivos de nenhuma cidade em particular, são do país e do desenvolvimento em que vivemos, mas precisa de uma ideia social. E é das questões sociais que vamos ouvir falar nos próximos anos face a uma área metropolitana mais insegura, onde estacionar um carro durante o dia em qualquer local, ou sair à noite, são experiências cada vez menos tranquilas.

3. Há algo radicalmente novo à vista: Matosinhos pode ficar com o independente Guilherme Pinto, Gaia com o independente Guilherme Aguiar e o Porto com o independente Rui Moreira. Mas mesmo que seja o social-democrata Menezes no Porto, ou o socialista Eduardo Rodrigues em Gaia, há uma plataforma única para se gerar um entendimento para lá da política. Projetos comuns que integrem transportes, corredores de investimento, sinergias com as universidades e investimento ambiental para colocar este "Porto Grande" no mapa da Europa.

O maior defeito/qualidade desta grande cidade é o seu excessivo ego, como se estivéssemos (sempre e só) no centro do mundo. Até os títulos internacionais do F. C. Porto, milagres de uma utopia tipo David-Golias, ajudaram a criar um equívoco imenso. Podemos sonhar em sermos os melhores do mundo e às vezes somos. Mas, no quotidiano, temos de arrumar a casa, tornar a cidade rentável, cuidar dos mais vulneráveis e limpá-la. Para isso vale a pena lutar pela ideia de uma certa união que se especialize na gestão, com maior escala, para atrair investimento, gerar sinergias e melhorar a qualidade de vida. Este "Porto Grande" é uma cidade com massa crítica para mudar o nosso dia a dia. E como diz Benjamim Barber, num TED que recomendo, o mundo devia ser governado através de cidades e por líderes de proximidade. Foram as cidades (Atenas, Roma, Constantinopla, Londres, Nova Iorque) que mudaram e fazem História.

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