Opinião

Temos de sair daqui, "Monti"

Temos de sair daqui, "Monti"

Depois do que disse ontem o nosso primeiro-ministro "Mário Monti", proponho este título para uma leitura "à la carte" em função da perspetiva de cada leitor. Para os mais otimistas, "Temos de sair daqui" vai no sentido de fazermos mais um esforço para ver se o país readquire a credibilidade e sai do pântano, porque não há muitas alternativas benignas. Austeridade é isto. Mas este "temos de sair daqui" está cada vez mais na cabeça de muita gente noutra perspetiva: emigrar - cansada de pagar tantos impostos, ou pior, nem sequer ter emprego. Por fim, este "temos de sair daqui" vai ser muito concreto nas sedes das empresas que têm lucros acima de 7,5 milhões de euros porque é um novo convite a mudar-se a sede para países com taxas mais baixas de IRC ou sair-se de Portugal.

Por mim prefiro a primeira opção. Gaspar Monti tem no orçamento de 2013 uma última oportunidade para concretizar com rigor e êxito as suas projeções. Não será fácil. O ministro das Finanças está demasiado longe da realidade para sentir, já hoje, que o país quase faliu depois da crise da TSU. Quem ainda gastava alguma coisa consome ainda menos. Os empresários hesitam menos em despedir ou desistir. Portanto, parece, a olho nu, que Gaspar pode voltar a falhar, por larga distância, a estimativa de arrefecimento económico. E digo isto porque se pensa que vai ter apenas 16,4% de desemprego (e pensa...) está a ser loucamente otimista. Dá-lhe jeito, mas o mundo vai desabar-lhe nas mãos quando voltar a receber os números da receita fiscal, em 2013, e descobrir buracos gigantescos. Dirá depois que "a contração da economia foi superior ao esperado" - uma frase que corre o risco de ficar como a sua legenda na História de Portugal...

E isto seria absolutamente dramático porque o falhanço de Mário Gaspar será o fim da credibilidade de Portugal. Se é verdade que ontem conseguimos colocar nos mercados um empréstimo obrigacionista a vencer em 2015 (apesar da taxa ser bem alta, 5,12%...), nada garante que isto não resvale... Ou saiamos do euro.

Ora... exatamente... sair do euro? Por mim, acho que não. Se ficarmos com as nossas dívidas em escudos, se importarmos combustíveis e alimentos noutra moeda que não euros, isto ainda vai ser muito pior. Os líricos que acham o contrário têm algumas semelhanças a António Borges - pensam o Mundo apenas a partir das universidades. Nada seria mais grave para os pobres que comprar pão, transportes públicos ou luz em escudos. Os que ainda pagam casa veriam as prestações subir de forma absurda. E a Banca portuguesa entraria em colapso por fuga de capitais e incumprimentos de toda a gente (empresas e famílias). Por isso este caminho dos impostos é o caminho das pedras: é baixar défice, exportar... e fé em Deus. Cortar na despesa? Não sabem nem têm tempo... Aliás, não fosse a arrogância intelectual de Borges e a inconsciência infantil de Passos e estaríamos, talvez, com medidas menos graves e mais paz social. Assim, estamos perante um incêndio de brutais proporções onde todos ralhamos e já quase ninguém tem toda a razão.

Outros dois pontos que Vítor Monti está a descurar: o Imposto Municipal sobre Imóveis corre o risco de fazer arrefecer ainda mais a reabilitação urbana ou a retoma das propriedades agrícolas, dois setores profundamente críticos para a criação de emprego e de produção nacional. Por outro lado, Mário Gaspar tem nas mãos os dinheiros comunitários e não faz outra coisa que não seja congelar tudo, deixando os promotores à espera do dinheiro meses a fio, dinheiro esse crítico para se criar emprego e atividade económica. O respeito do primeiro-ministro das Finanças pelos empresários e trabalhadores fica-lhe bem. Mas traduz-se em quê?

Ah... e só mais um ponto: era esta a "equidade" que Cavaco exigiu? E o Tribunal Constitucional, está agora de acordo com esta redistribuição público/privado? Ainda bem. O efeito da crise "inconstitucional" gerou a palermice TSU e as duas juntas o tumulto e a perda de confiança nacional numa saída para a crise, que se traduz em buracos maiores no défice... É por isso que só nos resta o senhor "Monti". E se ele falhar...