O Jogo ao Vivo

A abrir

A geringonça sem fim

Ao contrário do que se possa pensar, nestes tempos de "alianças com a extrema-esquerda", há outros encontros de vontade que sobrevivem, mesmo em tempos de crispação entre os dois protagonistas maiores da vida política portuguesa em democracia. Bem podem PS e PSD mostrar-se muito desavindos com arrufos do género de que quem perde "a maioria tem de virar a página e mudar a política de austeridade" ou, no seu equivalente, de garantir que não se "vai ser muleta de um Governo ilegítimo". Há sempre assuntos onde o entendimento é possível, mesmo que não desejável.

Não falamos, como é óbvio, de grandes áreas estratégicas, onde é útil gerar entendimentos que evitem que a cada novo Executivo os portugueses sejam poupados ao torcicolo de ver o que ontem era verdade transformado em nova mentira. Tem sido possível encontrar entendimentos em áreas como a Europa ou a Defesa, mas também era desejável estabelecer entendimentos em setores como o Ensino ou a Segurança Social.

Do que eu falo é dos acordos gerados no seio dessa geringonça sem fim que se chama "bloco central de interesses", que sobrevive a qualquer turbulência política. E vem isto hoje a propósito da legislação que BE e PCP queriam aprovar para acabar com as fidelizações a 24 meses dos pacotes "televisões+net+voz" que são comercializados pelas operadoras de telecomunicações. A resposta do PSD e do PS ao apelo de uma petição de 157 mil cidadãos acaba por ser a costumeira mexida em algumas regras para que tudo fique mais ou menos na mesma.

E sempre que vierem à baila os interesses de grandes empresas, preparemo-nos para a sintonia entre os dois grandes blocos e a completa nulidade da ação dos reguladores. Só isso justifica que continuemos a pagar a gasolina ao preço que pagamos, independentemente de quanto custa o petróleo. Só isso nos faz estar amarrados a um vergonhoso processo como o da TDT. Só isso serve para explicar porque é que, sendo mais cerca de 80% da energia elétrica que consumimos obtida a partir de água, continuemos a pagar dos preços mais altos da Europa, como se ainda comprássemos petróleo ou gás.

Por estas e outras, bem pode o Bloco de Esquerda preocupar-se com coisas importantes como rebatizar o cartão de cidadão como "cartão de cidadania", que muitos de nós continuaremos a não encontrar NA Assembleia da República ou NO Parlamento a justa defesa dos nossos direitos.

SUBDIRETOR

PUB

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG