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A reinvenção de Passos

A reinvenção de Passos

"Não tenho de me reinventar", disse há dias o antigo primeiro-ministro hoje recandidato a líder do PSD. O homem que venceu José Sócrates, prometendo que não ia cortar onde o socialista tinha cortado, e que acabou a ceifar onde o socialista só ousava aparar, perdeu o poder e vê hoje outros a somar onde ele tinha subtraído.

Regressar à pele de primeiro-ministro sem se reinventar significará ficar imóvel à espera que a oportunidade venha ter com ele. Ora isso só acontecerá, pelo menos a médio prazo, se as coisas correrem muito mal para os socialistas e, consequentemente, para o país. Este cenário de crise é para já a melhor hipótese de Passos Coelho, pois não são poucas as dificuldades que terá para se afirmar como alternativa nos próximos tempos.

A personalidade austera de estadista, que Passos, de "pin" na lapela, tem dificuldade em abandonar, até lavra bem fundo nos portugueses (basta lembrar Cavaco Silva primeiro-ministro), mas funciona bem enquanto se está no poder. Na Oposição e quando quem ocupa o Governo vai mostrando alternativas, mesmo que de alcance limitado, onde antes se jurou que não as havia, a pose de pai inflexível fica curta para despertar interesse numa mudança. Passos necessita de explicar o futuro e, para já, ainda parece demasiado agarrado ao passado. Para quem teve duas recentes vitórias eleitorais, mesmo que amargas, é difícil atribuir-lhe a imagem de vencedor.

Não faltará a Passos Coelho a paciência para esperar pela possibilidade de o tempo lhe dar razão, até porque, para já, tem consigo um partido onde não há alternativa e nem parece haver alguma vontade de que haja. Mas se o caminho não é fácil na luta com os seus adversários naturais, também não estará facilitado com aqueles que deveriam ser os seus aliados.

O seu parceiro de coligação, o CDS-PP, fez uma leitura diferente da realidade política e prepara-se para eleger um novo líder, que poderá querer disputar um centro que a necessidade de enunciar a "social-democracia, sempre!" só revela como ficou abandonado pelo PSD. E o novo presidente eleito, mesmo se apoiado pelo partido de Passos Coelho, terá num primeiro mandato a vontade de alargar o seu espaço político e, como tal, pouca inclinação para se tornar um problema para o Governo socialista.

O recandidato a líder do PSD poderá não querer reinventar-se, mas o cenário adverso exige um novo Passos Coelho.

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