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Amargas vitórias

A proposta de descida da taxa social única (TSU), associada à subida do salário mínimo, e toda a convulsão política que ela gerou, serviu como prova de stresse ao nosso atual sistema político. No fim, acho que quase todos podem cantar vitória, mas tenho dúvidas que alguém seja vencedor.

É verdade que a descida da TSU chumbou, mas Governo e António Costa, ao que tudo indica, vão poder averbar o significativo trunfo político de obter um entendimento com patrões para o aumento de salário mínimo, o que não é coisa pouca para um Governo rotulado de estar perigosamente à Esquerda. A rapidez da resposta do primeiro-ministro mostra que ele continuará até à saciedade a contrapor ao outrora "não há alternativa" o atual "há sempre uma outra solução".

Mas a aliança que mantém com três partidos à Esquerda expôs as suas fragilidades e as suas limitações quando a matéria é política económica, já para não falar de reformas estruturais. E isto não é coisa pequena. Bloco, PCP e Verdes, coerentemente, conseguiram rejeitar a descida da TSU, mas não puderam evitar aprovar uma outra medida de compensação para "os patrões". A partir daqui vai ser preciso concertar ainda mais posições à Esquerda.

O PSD tirou o tapete ao Governo, mostrou as fragilidades da atual aliança parlamentar e animou as hostes, mas dificilmente deixará de ser olhado como incoerente, quer na TSU quer na rejeição de um acordo obtido na Concertação Social. Pareceu que não queria o aumento do salário mínimo, mas não teve a coragem da clareza e fixou a imagem de um Passos negativo, sem alternativa, só à espera que tudo possa correr mal ao país para regressar ao poder.

Marcelo Rebelo de Sousa foi a jogo ao lado do Governo num exercício arriscado, mas permitido para quem continua com as taxas de popularidade na estratosfera. Começa a ser demasiado óbvia a sua vontade de ver um rosto menos crispado à frente do PSD e a prazo isso pode alienar uma parte do seu eleitorado natural, especialmente se as coisas começarem a correr mal.

E o CDS? No meio de tanta troca de posições, os centristas não perderam a face, mas a sua abstenção, ao lado do jogo político dos sociais-democratas, é uma espécie de soma zero. Nem mal, nem bem, antes assim-assim.

No fim, o país que vê o Mundo a arder à sua volta, sente-se mais frágil. A Europa que aí vem, pós-Brexit, pós-Trump, terá pouco espaço para os jogos florais deste jardim à beira-mar plantado.

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* SUBDIRETOR

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