Opinião

Eu vi o futuro

Eu vi o futuro e foi anteontem. Em Vagos. Eu vi o futuro a berrar contra o passado e gostei. O futuro nem sempre está certo e o futuro nem sempre é bom, mas anteontem esteve certo e foi bom. Foi, porque esteve em sintonia com a humanidade e a tolerância, porque se ergueu em respeito da Constituição portuguesa que no seu artigo 13.º, o do princípio da igualdade, diz no seu ponto 1 que "todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei". E precisa no ponto 2: ".Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual".

Anteontem, o futuro sentou-se nas escadas de uma escola de Vagos a berrar contra "a homofobia", porque soube que duas colegas raparigas tinham sido chamadas à Direção por fazerem uma coisa que um colega rapaz e uma colega rapariga podiam fazer livremente: beijar-se.

Claro que o futuro é imaturo, funciona à velocidade das redes sociais e sem medir as consequências das suas ações. Mas o futuro é mesmo assim, ainda se está a formar, tem pouco tempo para ponderação, mas quando responde com o instinto certo tem de ser acarinhado.

Só quem não lida com os mais novos de hoje, pelo menos em meio urbano, é que não vê este futuro a crescer, feito de gente que fala que o amigo ou amiga é homossexual, não como insulto ou com escárnio, mas com a naturalidade de quem diz que ele é "gótico" ou "heavy metal". Até pode ser que venham a crescer e a ficar umas bestas mas, para já, mostram esta tolerância indiferente que os pais deles nunca conheceram.

Neste futuro que já se vai vendo pelas ruas, há homens de mãos dadas e mulheres que se beijam e ninguém tem nada a ver com isso a não ser para garantir que eles o podem fazer livremente. E não, a escola não tem de ser um palco de exibicionismo hormonal, mas quem nunca beijou que atire a primeira pedra, mas depois fuja, porque há muitos mais que viveram esse despertar da sexualidade na escola onde passam a maior parte da sua vida de jovens. Rapazes e raparigas. Rapazes com raparigas. Rapazes com rapazes. Raparigas com raparigas.

Numa semana em que o terror voltou a atacar de forma brutal e cruel foi tão bom ver que o futuro está aí vivo, alegre e capaz de erguer as bandeiras certas nos momentos necessários.

* SUBDIRETOR

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