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A lição de Megamind

A lição de Megamind

É um enredo clássico das histórias de super-heróis e super-vilões, como a de Megamind, o brilhante mauzão de cor azul que um dia consegue superar Metro Man. Ao vencer a sua Némesis, o personagem do filme de animação vê-se subitamente desorientado, sem sentido para a vida: quem poderá ele agora combater?

Começo a achar que António Costa deverá estar a sofrer um efeito semelhante ao de Megamind com a saída de Passos Coelho de cena, tal o número de erros e a inabilidade política que nos últimos tempos parece marcar a atuação do Governo. É evidente que o desaparecimento desse fator que servia de cimento à coligação de esquerda e as possibilidades que abrem uma nova liderança do PSD trazem alterações ao panorama político ainda difíceis de controlar.

Mas os passos em falso, daquele que nos habituamos a elogiar pela habilidade política, também têm de ser encontrados na incapacidade do Governo para lidar com os incêndios deste ano e na dificuldade de gerir os resultados autárquicos em altura de exercício orçamental com os parceiros de Esquerda.

Este cenário alargado poderá ajudar a perceber como o Governo se transformou num ser reativo, incapaz de prever o próximo problema. Basta ver a forma atabalhoada como tem gerido a questão dos professores, quando era fácil de entender que o descongelamento das carreiras traria o problema da recuperação do tempo em que estiveram descongeladas, mesmo que as limitações do atual entendimento parlamentar não permitam as reformas que se impunham. Ou então podemos olhar para a confusão instalada com a impreparada mudança do Infarmed de Lisboa para o Porto. Nem previu as consequências dessa (cada vez mais) hipotética mudança, nem consegue enquadrá-la em nenhuma estratégia lógica, destruindo qualquer ideia que ainda pudesse haver de que este Governo tem um plano estabelecido para a descentralização.

Mas há porventura uma outra razão, ainda mais presente, para a perda de habilidade política de Costa e essa chama-se Marcelo Rebelo de Sousa. A forma como o presidente soube reagir à tragédia dos incêndios e se ergue como figura fiscalizadora - associada às possibilidades que lhe abrem uma nova liderança do PSD - parecem ter desorientado Costa.

Resta esperar que o primeiro-ministro não siga o exemplo do personagem Megamind que, perante a falta de um inimigo para combater, decidiu inventar um que viria a revelar-se o seu pior pesadelo. Fazer isso com Marcelo seria um erro de proporções épicas, mas certamente há um limite para tanta trapalhada.

SUBDIRETOR

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