Opinião

Assédio presente

Em 1829, aos 12 anos, Silva Porto, que viria a ficar na história como um dos colonizadores de Angola, emigrou sozinho para o Brasil. Em 1896, os pais de uma criança de dois anos morta por negligência de uma companhia ferroviária norte-americana pediram uma indemnização em tribunal, mas só receberam o pagamento do funeral. Decretou o juiz: "Sendo a criança de tão tenra idade, não tinha capacidade de ganhar dinheiro e, portanto, o arguido não pode ser responsabilizado por danos". Em 1997, em Penafiel, este vosso jornalista ainda encontrou mãos muito infantis empenhadas em transformar granito em paralelos.

Serve esta pequena coleção para sublinhar que os nossos costumes têm evoluído ao longo dos anos e que aquilo que hoje achamos intolerável foi prática corrente no passado, sem ser sujeito a nenhum juízo condenatório. Uma evidência para muitas áreas da nossa sociedade, mas que nos últimos anos se tornou especialmente visível no que respeita às crianças e aos animais, onde a proteção do que antes quase não tinha valor se tornou palavra de lei. Mesmo descontando alguns exageros, são passos civilizacionais importantes.

Por muito que o processo seja lento, demasiado lento, outro tanto está a acontecer com as mulheres, ajudando a equilibrar a relação entre géneros. Nos últimos dias, desencadeou reações em cadeia uma investigação do "The New York Times" aos múltiplos casos de assédio sexual de um dos homens mais importantes de Hollywood, Harvey Weinstein.

Primeiro no universo do cinema, depois um pouco por todo o Mundo, mulheres têm vindo a relatar casos de condutas inapropriadas que antes calaram. Fazem bem, especialmente em todos os casos em que os homens se aproveitaram da sua posição de poder para coagir as vítimas. Mas convém não perder de vista que o que queremos é mudar o presente, para que o que aconteceu no passado não venha a suceder no futuro.

Ficarmos fixados no passado, num tempo em que os costumes eram diferentes, vai certamente criar situações de injustiça, até porque, perante o ruído do momento, qualquer defesa, passados às vezes mais de 30 anos, é inútil. Mas pior do que isso, pode parecer que o assédio sexual é um problema de outrora, que já viramos a página e que agora estamos a desenterrar casos. Não é. É um problema do presente que tem de ser enfrentado com força suficiente para que os abusos não venham só a ser relatados daqui a muitos anos.

*SUBDIRETOR

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