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Comboio em marcha atrás

Comboio em marcha atrás

Quando eu, morador de subúrbio, me comecei a aventurar nas andanças pela cidade grande, a coisa mais castradora era o horário do comboio. Se a memória não me trai, o último a sair da Estação de São Bento era por volta das 23.40. Após isso, só havia o "comboio dos tropas", que não parava no meu apeadeiro.

Eu e os meus amigos achávamos, naqueles anos de 1980, que isso era a marca de um país subdesenvolvido que não permitia que alguém fora da cidade fosse à noite ao cinema ou a um concerto. Trinta anos depois, o relógio andou 15 minutos, ou seja, agora é possível apanhar em São Bento um comboio urbano para sul pelas 23.55. Já em Lisboa, soube-se esta semana, o relógio andou para trás. A partir de dezembro, quem quiser apanhar o último Intercidades vai ter de o fazer meia hora mais cedo, às 21.30.

É um sinal de marcha atrás, como é o encerramento da delegação da Comissão do Mercado de Valores Imobiliários (CMVM) no Porto. Não que a CMVM seja hoje muito importante na cidade, mas o que conta é esse sinal, que contraria por completo o discurso do atual Governo de empenho na descentralização. O que continua a contar é que este é só mais um passo na concentração em Lisboa, como é o esvaziamento do Instituto de Apoio às Pequenas e Médias Empresas (IAPMEI), da PME Investimentos ou da Portugal Ventures, que formalmente têm sede no Porto mas que, tal como a propalada política de descentralização, são só fachada.

Para a galáxia mediática e política da capital, este é só mais um arrazoado daqueles ressentidos do Norte que nunca estão bem com o que têm. E bem podem dar-se ao luxo de o ignorar, não só porque dominam a agenda nacional, mas também porque as vozes no Norte são cada vez mais débeis, cada vez menos capazes de formular um protesto concertado, que vá ao essencial, em vez de se diluir em cartas para Lisboa ou na espera da avaliação do que afinal vale a delegação da CMVM.

O essencial, que não nos devemos cansar de repetir, é que este é o país mais centralizado da Europa e que este desequilíbrio não faz só mal aos territórios abandonados pelo Estado, mas impede a gestão mais racional e mais eficaz dos recursos que advém da aplicação do princípio da subsidiariedade. O essencial é que somos todos pagantes de impostos, mas uns têm incomensuravelmente mais oportunidades e mais benefícios que os outros. O essencial é que muitos de nós continuam a viver no país Cinderela que tem de apanhar o comboio antes da meia-noite. E não há fada madrinha que nos valha.

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