Opinião

Luz na escuridão

Desde esta semana, o lema do jornal "The Washington Post", colocado mesmo por debaixo do cabeçalho, é "A democracia morre na escuridão". Apesar dos desmentidos, muitos consideraram que havia uma relação direta entre a frase e Donald Trump, que acusa diversos órgãos de comunicação social de serem "inimigos do povo".

Mas a frase, retirada de uma entrevista a Jeff Bezos, fundador da Amazon e proprietário do "The Washington Post", fala para lá deste tempo agitado nos EUA e pode ser vista como uma alegoria sobre o papel da imprensa, ameaçada por nuvens cada vez mais sombrias. Não falo agora da fragilidade desta indústria devido à passagem para o digital, que reduziu receitas e cortou as redações para metade, apesar de se terem multiplicado os suportes para onde os jornalistas trabalham.

A ameaça maior está num ecossistema comunicacional onde as redes sociais imperam e a irracionalidade ameaça contagiar tudo e todos. Se houvesse dúvidas, bastava por estes dias fazer uma busca por "Sweden" no Twitter, logo após a polémica declaração do presidente norte-americano, e mergulhar num universo de notícias inventadas, devidamente servidas por gráficos e mapas que, por exemplo, falavam do "colapso da Suécia" ou do encerrar de fronteiras da Noruega. A estes "factos alternativos", juntava-se um cerrado ataque à imprensa, por "ocultar" a verdade sobre a Suécia e a imigração. E para que não se julgue que isto é uma peculiaridade norte-americana, percam algum tempo a ler comentários no Facebook a notícias sobre o presidente norte-americano e descobrirão que há muitos mais trumpistas entre nós a atacar a imprensa do que seria de esperar.

Haverá quem defenda que as redes sociais sempre foram propícias a estes juízos hiperbólicos. Mas quando assistimos a um disseminado ataque ao jornalismo, legitimado pelo líder do país mais poderoso do Mundo, então a imprensa corre o risco de ver seriamente ameaçada aquela que é a sua última trincheira, a confiança.

É óbvio que cometemos erros. É óbvio que estamos fragilizados pela crise e navegamos em terrenos arriscados, nomeadamente na busca de audiências no digital. Mas todos os dias tentamos fazer melhor, honrando quem deposita confiança em nós. Por isso, não tenho dúvida de que para aqueles que, como Winston Churchill, acreditam que "a democracia é a pior forma de Governo imaginável, à exceção de todas as outras que foram experimentadas", a imprensa continuará a ser uma fonte de luz.

*SUBDIRETOR

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