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Memória viva

A memória é um bem precioso e um exercício importante nestes tempos de polémicas instantâneas que nos embotam o raciocínio e nos fazem perder o contexto revelador que só o sentir do correr do tempo nos proporciona.

Esta semana foi exigente com a minha memória como poucas. Ainda ontem, obrigou-me a recuar até meados dos anos oitenta do século passado, à sala por cima do extinto Nosso Café, em Espinho. Tentou tocar nessa noite uma banda chamada Xutos & Pontapés. "Tentou", pois à segunda música o concerto para uma plateia de punks acabou interrompido pela Polícia, porque "estava a fazer muito barulho". Dessa existência quase clandestina até ao estrelato faz-se a história de uma banda que ajudou o país a virar a página dos tempos revolucionários pós-25 de Abril e a olhar para os anseios de uma nova geração que crescia em democracia. Zé Pedro, que nos deixou ontem, personificava como poucos essa vontade de futuro.

No dia anterior, a memória tinha-me levado até à minha secretária na Rua de Nossa Senhora de Fátima, ao arranque de uma experiência jornalística singular, o jornal "Público", que só existiu porque um empresário teve visão para pagar um jornal independente inteiramente gizado por jornalistas. O homem foi evidentemente Belmiro de Azevedo, sinónimo de engenho empresarial muito antes de "empreendedorismo" se ter tornado mantra do "economês".

A riqueza que criou, os empregos que gerou, a inovação que trouxe a diferentes setores são suficientes para merecer a nossa memória. Mas a liberdade com que permitiu que o "Público" singrasse, a forma como, num país unipolar, manteve o essencial das suas operações no Norte e, muito especialmente, a capacidade que teve para nunca se deixar vergar ou encantar pelo poder político permanecerão como traços cívicos exemplares. Num país em que a maior parte dos casos de sucesso se fazem de "empresários" que andam de mão dada com os políticos, a forma como Belmiro de Azevedo foi derrotado em processos que tinham a interferência do Estado, na Comunicação Social ou nas telecomunicações, são medalhas que brilham no peito de um homem livre que nunca teve problemas em dizer o que pensava.

Estes dois portugueses merecem o tributo da nossa memória.

P.S.: Como último exercício de memória, a lembrança de abril de 2002, quando pela primeira vez integrei uma direção do JN e o orgulho que foi poder fazer parte da história deste jornal centenário. Saí em 2008, regressei em dezembro de 2014. Saio agora novamente para um entusiasmante projeto da Global Media Group e por isso esta será a minha ultima crónica neste espaço. Ficam as memórias muito boas destas passagens, mas acima de tudo permanece o gozo de trabalhar com excelentes profissionais ao serviço dos leitores mais importantes do Mundo.

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