A abrir

O muro da estupidez

Quatro metros de altura, um quilómetro de comprimento e uma imensidão de estupidez. Estas podiam ser as medidas do novo muro que os ingleses vão pagar para os franceses construírem junto ao porto de Calais, que possui uma comunidade permanente de refugiados a tentar penetrar no Reino Unido através daquele ponto.

É óbvio que um muro pode representar alguns ganhos de segurança para os camionistas que são atacados quase todos os dias, mas como escrevia o jornal britânico "Guardian" em editorial, um muro como este só irá empurrar os refugiados alguns quilómetros mais. Não lhes vai tirar a vontade de atravessar o Canal e, muito mais importante, não vai servir em nada para resolver a origem dos problemas que fazem com que os refugiados abandonem as suas casas à procura de uma vida melhor.

Em tempos explicaram-me que querer parar a globalização era como querer parar o vento com as mãos. Claro que falavam dos capitais, da deslocalização de empresas, dos produtos culturais. Quando se chega às pessoas, aquilo que verdadeiramente interessa, então os que antes defendiam um mundo sem barreiras já se podem dedicar aos gestos espúrios de construir muros para sossegar eleitorados.

A Europa onde eu cresci era a Europa que ostentava o muro de Berlim como a ferida em aberto de um século XX sangrento que urgia curar. A Europa em que envelheço é o continente onde crescem os nacionalismos, o populismo anda à solta e os muros multiplicam-se. Já lá estão entre a Hungria e a Sérvia e a Áustria também se prepara para erguer mais um.

Cada vez mais se erode a propalada superioridade moral de um continente que se acha no direito de rir de Trump e do seu fantasmagórico muro sem se olhar no espelho. Um espelho em que é possível ver os princípios que o distinguiam serem esquartejados pela inoperância em relação ao desafio colocado pelos refugiados e pelas respostas imensamente estúpidas que são o levantar de muros. Não são eles que nos ajudarão a resolver o desespero de milhões que não hesitam em atravessar desertos e mares em busca de uma solução.

E, no entanto, aquilo que deveríamos exigir aos nossos políticos é que olhassem para os números da demografia, que redundam em situações como aquela que hoje faz manchete do JN e percebessem que se fossem capazes de se erguer para lá do medo, há respostas muito mais inteligentes para dar ao problema dos refugiados.

* SUBDIRETOR

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